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A crônica a serviço da reflexão crítica

Estratégias de Ensino

A crônica pode estar a serviço da reflexão crítica, basta que para isso o educador saiba utilizá-la de forma adequada, aproveitando para trabalhar outros gêneros.
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Há descobrimentos de origens. Mais belos são os descobrimentos de destinos. Talvez, então, se os políticos por vocação se apossarem do jardim, poderemos começar a traçar um novo destino. Então, ao invés de desertos e jardins privados, teremos um grande jardim para todos, obra de homens que tiveram o amor e a paciência de plantar árvores à cuja sombra nunca se assentariam.

(Folha de S. Paulo, Tendências e Debates, 19/05/2000.)

2012 – ano de eleições e para subsidiar a temática da presente discussão ninguém melhor que ele: Rubem Alves. Assim, caro educador, que tal iniciar a aula de “hoje” franqueando o espaço para que os aprendizes reflitam acerca dessa bela passagem supracitada? Que tal deixar em aberto a fim de promover uma acalorada discussão a partir da afirmativa antes evidenciada: Mais belos são os descobrimentos de destinos.”?

Sim, destinos, todos, inclusive eles, os educandos, apesar de muitos ainda não terem atingido os 16 anos de idade, tampouco a idade obrigatória para exercer o dever de cidadania por meio do voto, estamos sedentos para conferir dos direitos que assistem a todos os cidadãos, sobretudo, para não irmos muito adiante, seremos bem precisos, justamente para citar os básicos, tais como saúde, segurança, educação, saneamento básico, isso para não falar sobre os muitos outros, que porventura andam por aí jogados ao léu, esquecidos, abandonados.

Dessa forma, caríssimo educador, uma das conquistas de seu trabalho em sala de aula, em especial quando as propostas se pendem para o trabalho com os gêneros, é justamente incitar o posicionamento dos alunos frente a um determinado assunto posto em discussão, abrindo “brechas”, digamos assim, para que o senso crítico, para que o despertar da oralidade, para que o reforçar de um dos papéis desenvolvidos pela escola sejam realmente materializados. Nesse sentido, indubitavelmente, a crônica intitulada “Política e jardinagem”, cuja autoria se encontra representada por esse singular escritor – Rubem Alves, representa o ponto de partida para uma promissora, rentável (em termos de aprendizado) proposta metodológica. Assim, para reforçar ainda mais nossas propostas sugestivas, verifiquemo-la na íntegra:

Sobre política e jardinagem

De todas as vocações, a política é a mais nobre. Vocação, do latim vocare, quer dizer chamado. Vocação é um chamado interior de amor: chamado de amor por um ‘fazer’. No lugar desse ‘fazer’ o vocacionado quer ‘fazer amor’ com o mundo. Psicologia de amante: faria, mesmo que não ganhasse nada.

‘Política’ vem de polis, cidade. A cidade era, para os gregos, um espaço seguro, ordenado e manso, onde os homens podiam se dedicar à busca da felicidade. O político seria aquele que cuidaria desse espaço. A vocação política, assim, estaria a serviço da felicidade dos moradores da cidade.

Talvez por terem sido nômades no deserto, os hebreus não sonhavam com cidades: sonhavam com jardins. Quem mora no deserto sonha com oásis. Deus não criou uma cidade. Ele criou um jardim. Se perguntássemos a um profeta hebreu ‘o que é política?’, ele nos responderia, ‘a arte da jardinagem aplicada às coisas públicas’.

O político por vocação é um apaixonado pelo grande jardim para todos. Seu amor é tão grande que ele abre mão do pequeno jardim que ele poderia plantar para si mesmo. De que vale um pequeno jardim se à sua volta está o deserto? É preciso que o deserto inteiro se transforme em jardim.

Amo a minha vocação, que é escrever. Literatura é uma vocação bela e fraca. O escritor tem amor mas não tem poder. Mas o político tem. Um político por vocação é um poeta forte: ele tem o poder de transformar poemas sobre jardins em jardins de verdade. A vocação política é transformar sonhos em realidade. É uma vocação tão feliz que Platão sugeriu que os políticos não precisam possuir nada: bastar-lhes-ia o grande jardim para todos. Seria indigno que o jardineiro tivesse um espaço privilegiado, melhor e diferente do espaço ocupado por todos. Conheci e conheço muitos políticos por vocação. Sua vida foi e continua a ser um motivo de esperança.

Vocação é diferente de profissão. Na vocação a pessoa encontra a felicidade na própria ação. Na profissão o prazer se encontra não na ação. O prazer está no ganho que dela se deriva. O homem movido pela vocação é um amante. Faz amor com a amada pela alegria de fazer amor. O profissional não ama a mulher. Ele ama o dinheiro que recebe dela. É um gigolô.

Todas as vocações podem ser transformadas em profissões O jardineiro por vocação ama o jardim de todos. O jardineiro por profissão usa o jardim de todos para construir seu jardim privado, ainda que, para que isso aconteça, ao seu redor aumente o deserto e o sofrimento.

Assim é a política. São muitos os políticos profissionais. Posso, então, enunciar minha segunda tese: de todas as profissões, a profissão política é a mais vil. O que explica o desencanto total do povo, em relação à política. Guimarães Rosa, perguntado por Günter Lorenz se ele se considerava político, respondeu: ‘Eu jamais poderia ser político com toda essa charlatanice da realidade... Ao contrário dos ‘legítimos’ políticos, acredito no homem e lhe desejo um futuro. O político pensa apenas em minutos. Sou escritor e penso em eternidades. Eu penso na ressurreição do homem.’ Quem pensa em minutos não tem paciência para plantar árvores. Uma árvore leva muitos anos para crescer. É mais lucrativo cortá-las.

Nosso futuro depende dessa luta entre políticos por vocação e políticos por profissão. O triste é que muitos que sentem o chamado da política não têm coragem de atendê-lo, por medo da vergonha de serem confundidos com gigolôs e de terem de conviver com gigolôs.

Escrevo para vocês, jovens, para seduzi-los à vocação política. Talvez haja jardineiros adormecidos dentro de vocês. A escuta da vocação é difícil, porque ela é perturbada pela gritaria das escolhas esperadas, normais, medicina, engenharia, computação, direito, ciência. Todas elas, legítimas, se forem vocação. Mas todas elas afunilantes: vão colocá-los num pequeno canto do jardim, muito distante do lugar onde o destino do jardim é decidido. Não seria muito mais fascinante participar dos destinos do jardim?

Acabamos de celebrar os 500 anos do descobrimento do Brasil. Os descobridores, ao chegar, não encontraram um jardim. Encontraram uma selva. Selva não é jardim. Selvas são cruéis e insensíveis, indiferentes ao sofrimento e à morte. Uma selva é uma parte da natureza ainda não tocada pela mão do homem. Aquela selva poderia ter sido transformada num jardim. Não foi. Os que sobre ela agiram não eram jardineiros. Eram lenhadores e madeireiros. E foi assim que a selva, que poderia ter se tornado jardim para a felicidade de todos, foi sendo transformada em desertos salpicados de luxuriantes jardins privados onde uns poucos encontram vida e prazer.

Há descobrimentos de origens. Mais belos são os descobrimentos de destinos. Talvez, então, se os políticos por vocação se apossarem do jardim, poderemos começar a traçar um novo destino. Então, ao invés de desertos e jardins privados, teremos um grande jardim para todos, obra de homens que tiveram o amor e a paciência de plantar árvores à cuja sombra nunca se assentariam. (Folha de S. Paulo, Tendências e Debates, 19/05/2000.)

Para começo de conversa, até mesmo no sentido de explorar as características dos textos nos quais predominam a linguagem conotativa, a primeira iniciativa é fazer com que os alunos compreendam que toda a crônica é voltada para o emprego de uma linguagem metafórica, característica essa bastante presente nos textos literários de uma forma geral, e como não poderia deixar de ser, por que não a crônica? Assim, múltiplas interpretações podem à linguagem ser aplicadas, mas de uma dessas concepções não há como duvidar: o jardim a que o autor tanto se refere caracteriza-se pelo espaço público.

Partindo dessa premissa, um dos questionamentos que podem ser levantados por meio de um debate se materializa pelo fato de que os políticos, concebidos pela gestão que hoje se efetiva, estariam mesmo atuando como atuantes por vocação ou por profissão?  Por que a Literatura é uma vocação bela e fraca, se o artista, por meio do que produz, expressa seu interior acerca da realidade da qual faz parte?

Por meio de uma passagem, singular por excelência, Escrevo para vocês, jovens, para seduzi-los à vocação política. Talvez haja jardineiros adormecidos dentro de vocês. A escuta da vocação é difícil, porque ela é perturbada pela gritaria das escolhas esperadas, normais, medicina, engenharia, computação, direito, ciência. Todas elas, legítimas, se forem vocação. Mas todas elas afunilantes: vão colocá-los num pequeno canto do jardim, muito distante do lugar onde o destino do jardim é decidido. Não seria muito mais fascinante participar dos destinos do jardim?”, eis um momento ímpar de se levantar algumas questões relacionadas à concepção de ser político no país em que vivemos, podendo até se estender um pouco mais no sentido de averiguar as predileções de alguns, haja vista que ali, ali mesmo em meio a tantos, dedicar-se por meio de muito esmero ao  trabalho a serviço da sociedade, do povo acima de tudo, quem sabe?  Como afirma Rubem Alves, detectar alguém seria fugir do convencional, já que o foco se volta para as escolhas consideradas normais: medicina, engenharia, computação, direito...

Para finalizar esse entrecruzar de opiniões, outro questionamento, outra reflexão parece que paira no ar, justificada por outra passagem: Uma árvore leva muitos anos para crescer. É mais lucrativo cortá-las.

Estaria esse instinto de lucro intimamente relacionado à ganância dos políticos de hoje em dia?

Encerrado assim o debate, não haveria desperdício algum em aproveitar a temática para trabalhar outro gênero – a carta argumentativa-, com base quem sabe nas propostas de algum candidato por aí, já pensou na ideia?


Por Vânia Duarte
Graduada em Letras

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