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O Jornal Escolar como proposta de ensino para “O dia do Índio”

Estratégias de Ensino

A escola, ao comemorar o Dia do Índio, acaba tornando-se um cenário de repetição de estereótipos, por isso apresentamos uma proposta de ensino diferenciada para essa comemoração.
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O dia 19 de Abril é o dia em que comemoramos o dia do Índio. No entanto, muitas vezes por falta de preparo do pessoal docente ou pelo hábito de se fazer a comemoração de determinada forma, a escola acaba se tornando um cenário de repetição de estereótipos.

Artesanato com macarrões, madeira e penas para simular vestes que acreditamos indígenas, pinturas corporais, representações do índio de forma idealizada, confecção de arco e flecha, construção de maquetes de ocas são exemplos de atividades que proporcionam o aprendizado sobre as culturas dos povos indígenas de maneira superficial.

No Brasil temos mais de duzentos povos indígenas, com línguas (cerca de 180) e hábitos diferentes. A aula de Filosofia pode ser um espaço para a discussão sobre as necessidades atuais desses povos, os direitos que já conquistaram, suas realidades, a ética de cada povo, como se organizam, o papel do mito e da música, por exemplo.

O Dia do Índio pode ser uma boa oportunidade para a implementação de um Jornal Escolar voltado para a pesquisa e conhecimento. Como já foi dito, a ignorância a respeito de muitos temas que envolvem os povos indígenas já seria uma justificativa suficiente. Costumamos dirigir maiores esforços para algo que é totalmente desconhecido – cada descoberta é um estímulo para avançar na pesquisa.

Uma forma de envolver todas as turmas em torno de um tema pode ser o Jornal Escolar. As matérias serão produzidas pelos alunos com supervisão do professor e sugeridas de acordo com a idade dos alunos. Dessa forma, os alunos do 3º ano podem pesquisar temas mais difíceis, como o direito indígena, a questão do gênero, a violência contra a mulher indígena, a homossexualidade entre os indígenas enquanto os alunos do 5º ano podem pesquisar temas como a infância indígena, como as crianças indígenas brincam, como é a estrutura familiar para os indígenas.

O professor/a professora pode dividir cada turma em grupos de cinco pessoas e atribuir um tema para cada grupo. Depois, supervisionar o grupo na construção de um texto de até 15 linhas. Também pode ser organizado um “comitê editorial” com representantes de cada turma que assumirão a responsabilidade de coordenar a produção textual, a organização do conteúdo, a disposição de imagens e, até mesmo, a diagramação, se houver entre os alunos pessoas que tenham familiaridade com softwares específicos.

Os professores/as professoras de Português, Literatura, Geografia e História podem contribuir com a produção do jornal. Cada um deles pode se responsabilizar por supervisionar uma turma, por exemplo. Podem contribuir com o processo de pesquisa, com a indicação de fontes ou sugerindo uma abordagem específica.

O professor/a professora de literatura pode sugerir trabalhar romances indianistas a partir de uma perspectiva crítica. Além disso, pode pedir aos alunos uma pesquisa sobre as línguas indígenas, sobre mitos indígenas e sobre a relação entre narrativa oral e escrita. Os livros de Daniel Munduruku podem ser uma ótima fonte para todas essas questões.

O professor/A professora de História pode sugerir trabalhar a importância histórica do Primeiro Congresso Indigenista Interamericano, de 1940, ou ainda contribuir para a construção de uma “linha do tempo” desde o início da colonização portuguesa até os dias de hoje, relacionando as datas ao número de povos conhecidos, direitos conquistados e alguns fatos marcantes, como o assassinato do índio Galdino, em 1997 por um grupo de cinco jovens de Brasília

O professor/A professora de Geografia pode trabalhar a questão da demarcação das terras indígenas, a relação entre a demarcação de terras indígenas e a preservação do meio ambiente e até mesmo a relação que o indígena estabelece com o seu espaço.

O professor/A professora de Educação Física pode sugerir a pesquisa a respeito de danças e atividades indígenas. A esse respeito, podemos nos referir, por exemplo, ao trabalho de Ismael Morel, filho de mãe indígena, formado em Educação Física e com Pós-Graduação em Psicomotricidade que desenvolveu um projeto na Escola Mbo'eroy Guarani/Kaiowa, aldeia de Amambai que consiste no ensino de danças guaranis a crianças da mesma etnia. Por essa iniciativa, Ismael ganhou o prêmio Educador Nota 10 em 2006.

A publicação, se for impressa, pode contar com o apoio da escola para fornecimento de recursos como tinta e papel. Caso seja inviável que a escola assuma os custos da produção, os comerciantes da comunidade podem oferecer recursos em troca da inclusão de um anúncio. É possível, também, fazer em vez de uma publicação impressa, uma publicação digital a ser disponibilizada online em alguma plataforma como o Slideshare, JooMag ou Scribd.

Pode ser organizado um lançamento na escola, com a presença dos pais, e alguns alunos podem falar sobre as pesquisas que fizeram, o que aprenderam e também sobre o processo editorial.

Além da vantagem de integrar os alunos de turmas diferentes em torno de um único produto, com a construção do jornal, os alunos poderão perceber que há outra forma de se relacionar com o conhecimento: quando fazemos uma pesquisa, lemos muitas fontes e formamos um pensamento sobre uma determinada questão, estamos não apenas estudando algo que foi produzido e sim produzindo, nós próprios, uma fonte de pesquisa. Aquirir um conhecimento pode ser um processo criativo e estimulante; quando oferecemos ao aluno a possibilidade de autoria, as chances de que isso ocorra são maiores.

Do ponto de vista da comunidade, o Jornal Escolar é muito importante para que se perceba a escola como um elemento que contribui para a formação de todos, mesmo aqueles que já concluíram sua formação formal, ou seja, como um espaço de produção de conhecimento e de formação de autores/pesquisadores. Do ponto de vista da própria instituição, o Jornal Escolar é um documento do comprometimento dos professores e da direção com a formação do aluno de uma forma mais ampla que a simples memorização de conteúdo.

* Créditos da imagem: Anton_Ivanov / Shutterstock.com


Por Wigvan Pereira
Graduado em Filosofia

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Estratégias de Ensino Educação Indígena
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