Debatendo o Pão e Circo


Discuta em sala de aula sobre os limites de atuação da política de “Pão e Circo”.


O processo de formação do Império Romano compõe uma das mais ricas e interessantes parcelas desta civilização. A extensão dos territórios, a imponência dos exércitos e o intenso comércio de escravos impressionam pelos números superlativos. De fato, os diversos detalhes que compõem tal período da história romana nem sempre podem ser devidamente contemplados no curto período que os professores têm para debater tal conteúdo em classe.

Entretanto, a falta de tempo para uma exposição acurada do assunto não pode licenciar algumas generalizações que são usualmente atreladas a Roma Imperial. Muitas vezes, o professor de História tem o hábito de justificar a realização das lutas de gladiadores nessa época como sendo um instrumento de contensão social. A famosa política de “pão e circo” foi estabelecida como um tipo de entretenimento que evitava revoltas que poderiam desestabilizar o poder do imperador romano.

Para justificar tal afirmação, relatam que a inserção de escravos na economia romana forçou uma grande massa de camponeses a ocuparem os centros urbanos em busca de outras oportunidades de trabalho. Contudo, essa enorme leva de pessoas que passaram a viver nas cidades romanas foi convertida em uma grande massa de desocupados que não obtinha nenhum meio de vida. Por isso, o oferecimento de espetáculos públicos com a distribuição de trigo e pão visava refrear o descontentamento desses miseráveis.

Apesar de aparentemente lógica, essa explicação não leva em consideração que a definição da política de “pão e circo” foi cunhada por uma perspectiva que partia das elites romanas. Além disso, seria mesmo possível barrar as tensões sociais elaboradas em um grande centro urbano como Roma, que na época contava com uma população de cerca de um milhão de habitantes? Por meio destes questionamentos, podemos ver que o controle do “pão e circo” deve ser devidamente problematizado pelos historiadores.

Na verdade, alguns historiadores apontam que o entretenimento disponibilizado pelo Império Romano não foi capaz de sufocar os conflitos sociais. Uma pequena parcela da população romana tinha acesso a essas apresentações, que aconteciam nas instalações do Coliseu e do Circo Máximo, por exemplo. Além disso, alguns documentos ainda apontam que somente uma parte dos pobres recebia os alimentos cedidos pelo Estado.

Com isso, não podemos pensar que em um simples “passe de mágica” a receita que misturava diversão e alimento pudesse alienar a população plebéia de seus problemas cotidianos. Muitas vezes, o comportamento desses miseráveis na própria arena transformava o espetáculo dos gladiadores em um momento de manifestação pública do descontentamento com a exclusão social e econômica propagada pelas instituições imperiais.

Ao estabelecer esse tipo de debate em sala, o professor insere uma perspectiva que foge do conceito empregado no cotidiano escolar sem a devida atenção. Ao mesmo tempo, demonstra que o conhecimento histórico está constantemente renovado por meio de pesquisas que salientam as formas distintas de se compreender o passado.


Por Rainer Sousa
Graduado em História
Equipe Brasil Escola


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Fonte: Brasil Escola - http://educador.brasilescola.uol.com.br/estrategias-ensino/debatendo-pao-circo.htm