A violência nas escolas brasileiras tem crescido nos últimos anos. Em 2023, por exemplo, o Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania registrou um aumento de 143,5% no número de denúncias e violações em ambientes escolares, se comparados com os registros de 2022.
O Disque 100 recebeu, no ano passado, 9.530 chamados; destes, 1,2 mil tiveram os professores como vítimas na situação denunciada. Outra pesquisa, realizada pela DataSenado, registrou que 90% dos brasileiros teme que seus filhos ou pessoas próximas sofram violência na escola, um receio maior do que a violência nas ruas que é de 76%.
Dentro deste contexto, entrevistamos Fabiano Ferreira, advogado criminalista e professor com experiência na educação pública, sobre o livro de sua autoria chamado "Manual Jurídico do professor: saiba como se defender". Confira tudo que descobrimos!
Fabiano compartilha sua trajetória até chegar na ideia desse livro. Ele atuava como professor e depois que fez o mestrado em ensino optou por realizar uma graduação em direito.
Quando ele chegou no meio do curso, percebeu que, no ambiente escolar, os professores e os gestores violam muitas leis, sem nem saber. Ele afirma:
"Eles cometem muitos erros, violam muitas leis, muitas vezes sem nem perceber, de forma culposa, não há dolo ali, mas está violando diversas normas".
O advogado também destaca que percebeu um crescimento nos ataques feitos aos professores surgindo na imprensa. Acusando os profissionais de doutrinação e assédio.
Por conta disso, ele decidiu avaliar quais eram os problemas reais presentes nas escolas. Para, a partir dessa análise, apresentar como o professor pode combater e se prevenir destes problemas em uma abordagem jurídico-pedagógica. Fabiano afirma:
"Eu sou um advogado-professor, que esta tratando dos problemas como bullying, disciplina, documentação escolar, danos morais, dano material, direito de imagem, comunicação dentro da escola, comunicação externa e legislação escolar. Mas, eu trago um visão jurídica e pedagógica.
Não sou nem só um professor escrevendo sobre direito e também não sou só um advogado escrevendo para professor. Eu trago as ferramentas de como o professor pode se prevenir em determinadas situações"
Ele cita como exemplo, a possibilidade de um aluno cometer um ato de indisciplina na sala de aula, o professor aplicar uma sanção pedagógica e a família do estudante processá-lo por isso, por entender que a ação foi ilegal. Fabiano destaca que as judicializações contra professor e escola têm crescido exponencialmente de 15 anos para cá.
Questionamos Fabiano se ele enxerga uma causa comum nos diversos ataques que tem surgido contra a classe dos professores e escolas, desde os massacres a mão armada até o crescimento dos processos judiciais.
Ele responde que essa é um resposta complicada, pois, na sua visão, são diversos fatores que corroboram para a situação ficar como está. Ele afirma:
"A questão que mais aparece nas judicializações é a questão ideológica-partidária. Também tem uma questão que gera muito problema é a ideológica-religiosa. São dois principais fatores que levam a esse confronto de ideias e pensamento dentro do ambiente escolar"
O professor diz que estas situações de conflito têm consequências psicológicas que podem terminar em violências físicas contra o professor ou outros alunos. Fabiano frisa que não é uma razão só, é um conjunto de fatores que cria esse conflito Sociedade X Escola.
O advogado explica que um erro comum dos professores é na produção de documentos. Ele afirma que é comum estes profissionais não saberem as normas jurídicas para registrar estes acontecimentos.
Fabiano declara:
"O primeiro ponto é o professor saber anotar as questões nos documentos escolares pertinentes, para que isso sirva, e requerer medidas em relação àquela situação. Um exemplo: O professor sente que o aluno está o ameaçando, indireta ou diretamente, ele deve redigir o que está acontecendo no registro de classe, às vezes, notificar a coordenação pedagógica para chamar a família daquele aluno para uma reunião e se tomar uma deliberação sobre aquela problemática, trazendo a família para dentro da escola e dando os encaminhamentos"
Fabiano afirma que se a situação persistir é dever do professor comunicar a polícia. Pois, ameaça é crime, mas sem a denúncia a polícia não pode tomar nenhuma atitude.
A solução proposta pelo advogado para a diminuição da violência nas escolas passa por vários fatores. Ele fala sobre o uso da tecnologia, questões político-religiosas e relacionamento entre pais e filhos.
Fabiano afirma que os filhos têm passado mais tempo na escola do que com os próprios pais, muitas vezes, por necessidade de trabalhar, o que traz consequências. Ele também faz uma crítica ambiente escolar, o professor declara:
"A escola é um ambiente que, nós que somos professores sabemos, é ultrapassado, em termos de estrutura. Nós temos uma estrutura escolar, mesmo nas escolas de elite, que ela é a mesma do século XIX, do início desse formato de escola a nível mundial e a sociedade mudou muito.
Até o jeito que as escolas são feitas, a disposição física das escolas, ela remete muito a um presídio, aquelas salas de aula uma do lado da outra, com um corredor no meio, parece muito a estrutura de um presídio, eu digo isso com propriedade, porque, como advogado criminalista, eu já visitei vários presídios"
Ele ainda fala sobre a superlotação que acontece em algumas escolas, em que o professor precisa lidar com 40/50 alunos em uma sala sem condições de se dar aula. Por fim, o autor conclui que os problemas da escola são reflexos dos problemas da sociedade, e a resposta não pode focar só em uma coisa ou outra, é necessário pensar soluções abrangentes.
Por Tiago Vechi
Jornalista
Fonte: Brasil Escola - https://educador.brasilescola.uol.com.br/noticias/violencia-nas-escolas-o-que-professores-podem-fazer.htm