O Dia Mundial da Conscientização sobre o Autismo é celebrado nesta quinta-feira, 2 de abril. O objetivo da data é compartilhar informações sobre o Transtorno do Espectro Autista (TEA), conscientizar a sociedade sobre as especificidades e características desta população, como também combater a discriminação e preconceito.
Dados do Censo Escolar 2024, realizado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), apontam que o número de estudantes com TEA matriculados em escolas da educação básica saltou de 636 mil para 918 mil de 2023 para 2024, um aumento de 44,4% nas matrículas de alunos nesta condição.
No contexto escolar, especialistas apontam que entre os desafios evidenciados a partir desta realidade, está a necessidade de compreender o espectro autista e sua diversidade.
"O Transtorno do Espectro Autista configura-se como uma condição do neurodesenvolvimento caracterizada por heterogeneidade clínica significativa, na qual alterações em domínios como cognição social, funções executivas e processamento da informação interagem de maneira dinâmica, resultando em perfis funcionais distintos e demandando abordagens individualizadas, baseadas em evidências"
Andrea Rodriguez Valero, neuropiscóloga da NeuronUP
Segundo Cinthia Lemes, professora e autora do curso TEAR (linhas da inclusão, Viver Editora), o aumento de alunos com TEA nas escolas aponta para lacunas na formação docente para lidar com essa complexidade. O Canal do Educador do Brasil Escola conversou com a especialista que comenta os desafios desta realidade e os caminhos para uma capacitação dos profissionais de educação no atendimento a estudantes autistas.
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A ausência de uma formação continuada para professores, gestores e profissionais da educação dificulta a adaptação de práticas pedagógicas às necessidades individuais de estudantes com TEA, afirma Cinthia Lemes.
Além disso, a especialista aponta também desafios estruturais e institucionais, tais como turmas numerosas, falta de profissionais de apoio, pouca articulação entre educação e saúde, bem como escassez de políticas efetivas de inclusão.
É fundamental, na opinião de Cinthia, a necessidade de superar uma visão ainda muito baseada no modelo médico, construindo uma perspectiva de neurodiversidade e inclusão real.
Segundo Cinthia, as instituições escolares possuem um papel estratégico no desenvolvimento e promoção de uma cultura inclusiva. Para isso, é preciso implementar programas permanentes de formação continuada, que não sejam pontuais, mas articulados e estruturados junto à prática docente.
As formações precisam integrar teoria e prática, abordando aspectos científicos do autismo até as estratégias pedagógicas concretas, como adaptações curriculares, uso de recursos visuais, mediação de comportamentos e organização do ambiente escolar.
"As escolas podem fomentar espaços colaborativos de aprendizagem entre professores, como grupos de estudo, acompanhamento pedagógico e troca de experiências. A inclusão não pode ser responsabilidade individual do docente, mas sim um projeto coletivo da instituição."
Cinthia Lemes
Quanto à gestão escolar, Lemes considera que é preciso garantir tempo, recursos e acompanhamento para que o educador consiga transformar a formação em prática efetiva.
Entre as políticas e ações que a administração pública pode realizar em prol de um melhor atendimento escolar a alunos com TEA, estão, segundo Cinthia Lemes:
Investimento em formação continuada em larga escala para professores e gestores;
Ampliação de equipes multiprofissionais (psicólogos, terapeutas ocupacionais, fonoaudiólogos);
Redução do número de alunos por sala, especialmente em turmas inclusivas;
Financiamento de recursos pedagógicos acessíveis e tecnologias assistivas;
Fortalecimento da articulação entre educação, saúde e assistência social.
A doutora em Linguística Aplicada e Estudos da Linguagem completa que é fundamental que as políticas públicas "incorporem a perspectiva da neurodiversidade, reconhecendo que a inclusão não significa adaptar o estudante à escola, mas transformar a escola para acolher diferentes formas de aprender e existir".
Um dos pilares da inclusão é a relação entre a escola e a família, enfatiza Cinthia. No contexto dos alunos com TEA, esse diálogo precisa ser contínuo, sensível e baseado na escuta ativa.
Os familiares contam com informações essenciais sobre o estudante, tais como os modos de comunicação, interesses, sensibilidades e estratégias que funcionam no dia a dia. Desse modo, na perspectiva de Cinthia, a parceria entre os profissionais da educação e a família precisa ser valorizada para que o processo educativo se torne mais consistente e eficaz.
Lemes pondera que é importante evitar uma relação pautada somente em problemas e dificudades. O ideal é que haja o reconehcimento das potencialidades do aluno para construir confiança com a família e promover um processo educativo mais humanizado.
Por Lucas Afonso
Jornalista
Fonte: Brasil Escola - https://educador.brasilescola.uol.com.br/noticias/dia-conscientizacao-autismo-estudantes-tea-importancia-capacitacao-professores-gestores.htm