Refletir sobre o futuro e as transformações na educação foi o objetivo principal da Arco Day 2026, evento que reuniu cerca de 2 mil gestores escolares e profissionais da área. A iniciativa é promovida pela Arco Educação, a maior empresa de educação básica da América Latina.
O auditório lotado presenciou falas de diferentes especialistas, nacionais e internacionais. Provocações, indagações, dados, insights, casos concretos de sucesso, entre outros conteúdos permearam o encontro.
Entre os palestrantes estão, Débora Garofalo, eleita a professora mais influente do mundo, Charles Duhigg, jornalista e autor do best-seller O Poder do Hábito, a cientista social Kasley Killam e o filósofo Mário Sérgio Cortella.
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Conexão humana e comunicação correspondida
Ganhador do prêmio Pulitzer, repórter do The New York Times e autor do best-seller O Poder do Hábito, Charles Duhigg, foi o responsável por abrir o evento da Arco.
Logo no começo chamou a atenção por apresentar a seguinte pergunta no telão "Qual foi a última vez que chorou na frente de outra pessoa?". A dinâmica consistia em que cada participante ali se virasse para a pessoa ao lado, fizesse essa questão, ouvisse a resposta e depois também a respondesse. O que antes era estranhamento, resultou em conexões e risadas.
Para o jornalista, perguntas profundas convidam as pessoas a compartilhar, o que consequentemente, pode desencadear certa vulnerabilidade. Esse processo permite uma proximidade entre os interlocutores.
Ao aplicar a reflexão no universo da educação, Charles enfatizou que os educadores são responsáveis por preparar não só estas, mas as próximas gerações.
"Precisamos ensinar aos alunos a como se conectar com os outros, a fazer as perguntas adequadas. Quando ensinamos o aluno a fazer perguntas profundas, ensinamos como tornar o mundo um lugar melhor"
Charles Duhigg
Crédito: Aline Ramos.
IA e a revolução pedagógica
Os professores Luciano Meira (UFPE) e Celso Camilo (UFG) protagonizaram um debate importante sobre o futuro da educação com IA.
Celso iniciou defendendo que precisamos repensar o modelo de sala de aula, da jornada de ensino e aprendizagem e construir formatos de ensino individualizados para construir uma educação mais humana.
É preciso, segundo o educador, incrementar humanidade nos processos tecnológicos de Inteligência Artificial, pois se não, "continuaremos gerando humanos robotizados".
Para ele, cabe ao humano o que é do humano. "A máquina não veio para tirar o trabalho da pessoa, a máquina tem chance de o tirar da robotização".
Crédito: Lucas Afonso.
Na perspectiva de Luciano Meira, é preciso rever a pedagogia e montar um sistema que capture a IA de forma regrada.
Em entrevista ao Brasil Escola, o professor da UFPE destaca que é preciso delegar de forma estratégica as tarefas para as quais você deseja que IA faça e que sejam capazes de avaliar o resultado, pois se não fizer isso, os efeitos serão bastantes deletérios.
"A aprendizagem humana exige esforço". Se o usuário não realiza esforço, quem vai aprender é o sistema com sua linguagem que você deposita ali. Para aprender é preciso de tensão cognitiva. "Exitar é um fenômeno essencial para a aprendizagem".
O letramento em IA é fundamental nesse processo, defende Luciano. Celso afirma que o trabalho de governança dentro da escola deve ser realizado, em conselhos diretivos e reuniões da gerência. É preciso "lidar com esse assunto de forma estratégica".
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"Escrever é pensar"
"Se a máquina escreve por você, ela pensa por você", afirma Ademar Celedônio, diretor de Ensino e Inovações Educacionais na Arco.
Crédito: Lucas Afonso.
O educador destaca que a escola do futuro não será a que mais usará tecnologia, mas sim aquela que vai lembrar as pessoas de quem elas são.
Em sua perspectiva, a curiosidade, criatividade, empatia e pensamento crítico são habilidades que atravessam o tempo. O objetivo, para ele, é ensinar os alunos a pensar, questionar e criar.
Importância do erro
Esther Wojcicki, criadora do método TRICK e fundadora do Centro de Mídias e Artes da Palo Alto High School, na Califórnia (EUA), abordou em sua participação no Arco Day a importância de ensinar as crianças a lidarem com as frustrações.
Crédito: Aline Ramos.
Não se aprende apenas ouvindo, mas sim fazendo, errando e tentando novamente, considera Esther. O método TRICK se baseia confiança nas crianças, filhos e estudantes e no respeito aos seus direitos. Para ela, os professores precisam dar oportunidade ao aluno de ter uma voz.
Saúde social
Kasley Killam, cientista social formada por Harvard, provocou a plateia perguntando: "O que você faz para ter saúde?". A partir da questão, a palestrante apresentou uma série de dados e pesquisas que fortalecem a importância da conexão humana, tal como o sono e o exercício físico possui.
"Vivemos mais se temos relações próximas com a família, amigos e comunidade"
Kasley Killam
Crédito: Aline Ramos.
Para ela, conectar-se com as outras pessoas é resultado de uma vida com significado. É preciso criar uma cultura de conexão e aprender em comunidade, defende.
Desafios da educação de hoje
A professora mais influente do mundo, Débora Garofalo, defendeu a educação na massa como ação para ressignificar o currículo.
Para ela, uma educação sem propósito, vira distração. É essencial que as e os profissionais da educação coloquem intencionalidade no fazer pedagógico.
Quando o estudante se engaja nos processos, ele aprende melhor, afirma.
Crédito: Lucas Afonso.
"Não precisamos destruir a escola que temos para construir uma nova escola", reforça o professor e Diretor de Ensino e Inovações no SAS Educação Idelfranio Moreira, também presente no painel do evento.
"Como você quer ser lembrado?"
Com a pergunta "Como você quer ser lembrado?", um dos principais nomes da Filosofia brasileira contemporânea, Mário Sérgio Cortella, norteou sua fala, marcada por relatos, questões intrigantes e sentidos.
Crédito: Aline Ramos.
Para Cortella, o futuro não é um lugar para onde valor, mas sim algo que começamos a construir hoje.
Ele responde a pergunta "quais foram os dias mais felizes da sua vida?" da seguinte forma: o dia em que nasceu e o dia em que descobriu porquê nasceu. A partir disso, ele provoca a plateia com "você nasceu para o que?".
Na visão do educador, a cada ação que fazemos em vida, deixamos marcas que vão muito além de nós. "Legado não é aquilo que acumulamos, mas sim o que compartilhamos".
Por Lucas Afonso
Jornalista