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História dos vencidos em sala de aula

Estratégias de ensino-aprendizagem

Através do filme “Uma história de amor e fúria”, é possível ao professor trabalhar a história dos vencidos que é ocultada pela historiografia brasileira.
Cena da animação representando o enforcamento de um dos líderes da Balaiada, o escravo fugido Cosme Bento das Chagas.*
Cena da animação representando o enforcamento de um dos líderes da Balaiada, o escravo fugido Cosme Bento das Chagas.*
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"Meus heróis não viraram estátua, morreram lutando contra quem virou." Tendo como eixo norteador essa perspectiva dos vencidos, a animação “Uma História de Amor e Fúria” apresenta uma interessante reflexão sobre a história do Brasil e também sobre a própria forma que vem se escrevendo essa mesma história.

Dirigido e roteirizado por Luiz Bolognesi, o filme conta a história de amor e de luta de duas personagens, um herói imortal e Janaina. O filme é composto de quatro episódios: três deles reais e que constam na história brasileira junto a outro episódio futurista, que se passa na cidade do Rio de Janeiro.

No primeiro episódio, Abeguá é um índio tupinambá que é marcado com a imortalidade dada por uma das divindades de sua tribo. Sua missão é lutar constantemente contra Anhangá, o signo da morte e da destruição. Em um momento em que precisa salvar Janaina, sua amada, Abeguá é agraciado com o dom do voo e também com a imortalidade. O primeiro momento em que tem que enfrentar Anhangá é durante as guerras entre tupinambás e tupiniquins, no contexto da invasão francesa no litoral brasileiro, conhecida como França Antártica, na primeira metade do século XVI. Ao ser vencido pela coalização de forças entre portugueses e tupiniquins, Janaina e Abeguá são mortos, sendo que o último se transforma em um pássaro.

A partir daí a narrativa se desenrola em torno dos encontros dos dois personagens ao longo de episódios da história do Brasil. O segundo episódio se dá durante a Revolta da Balaiada, na década de 1830. O pássaro se transforma em Manuel Balaio, servindo assim de mote para que seja apresentada a revolta popular que chegou a expulsar as tropas do governo regencial da cidade de Caxias, no Maranhão.

O terceiro episódio ocorre durante a ditadura militar, quando as personagens participam de uma guerrilha urbana para enfrentar o exército brasileiro. Prisões e torturas são apresentadas para retratar a repressão do Estado no período. O episódio termina com uma rápida referência à formação do Comando Vermelho, no Rio de Janeiro, em 1980.

Por fim, no ano de 2096, as duas personagens se encontram novamente no Rio de Janeiro, controlado por milícias privadas, cujo controle sobre a água doce é uma das principais fontes de riqueza do país.

Apesar de tratar de diferentes momentos da história do Brasil, é a posição dos vencidos, dos que foram derrotados e mantidos como explorados e oprimidos, que permanece em todos os momentos da animação. O objetivo do filme é apresentar outra forma de contar a história do país, evidenciando as ações das classes e grupos sociais que foram deixados no esquecimento pela historiografia que privilegia as conquistas das classes dominantes do país. O que o diretor pretende é narrar a história dos que não viraram estátuas pelas cidades do Brasil e como a história do Brasil foi sempre marcada pela extrema violência utilizada pelos dominadores contra os explorados e oprimidos.

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O professor pode trabalhar o filme tanto interdisciplinarmente como apenas durante as aulas de História. Isso é possível pelo fato de o filme apontar, além dos processos históricos, a construção da identidade nacional, os limites dos direitos sociais e da cidadania, bem como os preconceitos contra as diversas etnias e contra a mulher, por exemplo. Segundo uma das frases do personagem, “viver sem conhecer o passado é viver no escuro”.

No caso da disciplina de História, o filme pode servir como uma introdução de sensibilização sobre os temas históricos tratados na animação, buscando debater o viés dos vencidos na história e também da violência que faz parte da constituição do país. Duas perguntas norteadoras podem ser utilizadas: O povo brasileiro é um povo pacífico e passivo? Houve na formação do Brasil guerras civis que garantiram a unidade política e territorial?

A partir desse debate, o professor pode orientar pesquisas sobre os temas tratados, dividindo a sala de aula em quatro grupos, sendo cada um responsável por um tema: três grupos apresentariam uma visão diferente do que é apresentado nos livros didáticos sobre os fatos históricos da animação e um quarto grupo ficaria responsável por levantar os problemas tratados no último episódio, nomeadamente o controle da segurança pública e da água potável por empresas particulares.

A avaliação pode ser feita através de produções textuais ou através da apresentação em sala do resultado da pesquisa. O professor pode também utilizar o livro paradidático escrito pelo diretor Luiz Bolognesi e pelo historiador Pedro Puntoni, “Meus heróis não viraram estátua”, que contém ainda um material audiovisual produzido para a série de TV Lutas.doc, composta por cinco capítulos, que debatem a temática das versões que são escritas sobre a História do Brasil.

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*Crédito da Imagem: Divulgação


Por Tales Pinto
Mestre em História

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