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Os clássicos machadianos atuando na formação de leitores

Estratégias de ensino-aprendizagem

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As obras deste importante escritor permitem uma gama de atividades


Um dos mártires da Literatura Brasileira, Machado de Assis, deixou-nos um importante legado: A riqueza de sua produção artística. Atuou como um dos principais, senão o principal, representante da estética realista, com sua habilidade em focalizar os mistérios oriundos do caráter e da personalidade humana.

Tamanha foi sua genialidade que ele, mesmo pertencendo a um período histórico embora remoto, precocemente parecia antever as “mazelas” que tanto assolam a esfera social pertinente à contemporaneidade.

Entretanto, alguns educadores optam por explorá-lo a partir do Ensino Médio em virtude da complexidade de suas obras. Mas o ideal é trabalhar os clássicos desde as séries iniciais, procurando adequá-los de acordo com a faixa etária de cada turma, levando em consideração a sua capacidade cognitiva no que se refere à apreensão do conteúdo.

Tal procedimento permitirá que os educandos saibam apreciar uma literatura de boa qualidade, analisando o contexto histórico, os recursos estilísticos, a ideologia intrínseca a cada autor, dentre outros fatores.

Conjuntamente a esses benefícios, é bom que se ressalte que as obras machadianas proporcionam uma infinidade de propostas metodológicas, as quais permitem que o educador explore ao máximo essa fonte inesgotável de conhecimentos.

Tendo em vista os aparatos linguísticos que se atribuem a Machado de Assis, algumas atividades sugestivas poderão ser de grande valia, tendo como referencial um de seus contos, intitulado “Um apólogo”.
Para tal, evidencia-se a seguir alguns fragmentos referentes ao mesmo:


Um Apólogo

Era uma vez uma agulha, que disse a um novelo de linha:
— Por que está você com esse ar, toda cheia de si, toda enrolada, para fingir que vale alguma cousa neste mundo?
— Deixe-me, senhora.
— Que a deixe? Que a deixe, por quê? Por que lhe digo que está com um ar insuportável? Repito que sim, e falarei sempre que me der na cabeça.
— Que cabeça, senhora? A senhora não é alfinete, é agulha. Agulha não tem cabeça. Que lhe importa o meu ar? Cada qual tem o ar que Deus lhe deu. Importe-se com a sua vida e deixe a dos outros.
— Mas você é orgulhosa.
— Decerto que sou.
— Mas por quê?
— É boa! Porque coso. Então os vestidos e enfeites de nossa ama, quem é que os cose, senão eu?
[...]
— Também os batedores vão adiante do imperador.
— Você é imperador?
— Não digo isso. Mas a verdade é que você faz um papel subalterno, indo adiante; vai só mostrando o caminho, vai fazendo o trabalho obscuro e ínfimo. Eu é que prendo, ligo, ajunto...
[...]
A linha não respondia; ia andando. Buraco aberto pela agulha era logo enchido por ela, silenciosa e ativa, como quem sabe o que faz, e não está para ouvir palavras loucas. A agulha, vendo que ela não lhe dava resposta, calou-se também, e foi andando. E era tudo silêncio na saleta de costura; não se ouvia mais que o plic-plic-plic-plic da agulha no pano. Caindo o sol, a costureira dobrou a costura, para o dia seguinte. Continuou ainda nessa e no outro, até que no quarto acabou a obra, e ficou esperando o baile.
[...]
— Ora, agora, diga-me, quem é que vai ao baile, no corpo da baronesa, fazendo parte do vestido e da elegância? Quem é que vai dançar com ministros e diplomatas, enquanto você volta para a caixinha da costureira, antes de ir para o balaio das mucamas? Vamos, diga lá.
Parece que a agulha não disse nada; mas um alfinete, de cabeça grande e não menor experiência, murmurou à pobre agulha:
— Anda, aprende, tola. Cansas-te em abrir caminho para ela e ela é que vai gozar da vida, enquanto aí ficas na caixinha de costura. Faze como eu, que não abro caminho para ninguém. Onde me espetam, fico.
Contei esta história a um professor de melancolia, que me disse, abanando a cabeça:
— Também eu tenho servido de agulha a muita linha ordinária!



* Após uma leitura atenta do conto, o educador poderá trabalhar as variações históricas referentes à linguagem, comparando-os ao caráter dinâmico da língua.

* Poderão também ser explorados os exemplos de textos narrativos, no caso e literalmente falando, o apólogo - uma narrativa semelhante à fábula, tendo como personagens seres inanimados.

* Há a possibilidade de enfatizar valores humanos, partindo-se do pressuposto de que a principal característica da modalidade em questão (o apólogo) é justamente expressar um fundo moral ligado à ética e ao comportamento humano.

* Conteúdos gramaticais, no caso, o processo de formação de palavras, como as onomatopeias, apresentam-se como relevantes.
* Ao final das atividades, sugere-se que o educador proponha uma dramatização no intuito de diversificar e valorizar as múltiplas habilidades que, por razões diversas, tendem a ficar no anonimato. Surgindo desta forma a necessidade de despertá-las.

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