PUBLICIDADE
Recentemente, a série “Adolescência” tem gerado várias discussões no meio digital, o impacto das redes sociais na construção de identidade é um dos temas debatidos. Tendo em vista que, durante os anos da adolescência, acontece uma importante etapa do desenvolvimento humano e das relações interpessoais, é preciso reconhecer que as redes sociais mudaram a forma com que essas relações acontecem.
Em seu artigo “Tecnologia e adolescência: influência nas relações interpessoais e na construção de identidade”, Danila Gomes Freire da Silva e Liberalina Santos de Souza Gondim apontam que dentro do cenário das redes sociais as relações interpessoais são construídas através da interação e reconhecimento, sem existir uma delimitação geográfica. Essas plataformas são, atualmente, uma possibilidade de novas experiências que desenvolve a subjetividade a partir da interação com o outro.
As autoras mostram que, apesar de os jovens acreditarem poder se expressar plenamente nas redes sociais, o uso exagerado dessas plataformas gera, na verdade, uma dificuldade na construção de relações de confiança, além de fazer com que adolescentes tenham dificuldade em desenvolver laços afetivos e duradouros. Para Gomes e Santos as redes sociais são ferramentas que, ao mesmo tempo, desconstroem as diferenças individuais, também possibilitam manifestações singulares e criativas, tanto padronizando discursos como favorecendo reflexões críticas.
Leia também: Especialista comentam por que assistir a série "Adolescência"

Créditos das imagens: arquivo pessoal
O uso de redes sociais e a interferência no desenvolvimento da adolescência
Na série, o protagonista é um adolescente de 13 anos, a assessora pedagógica do programa Líder em Mim, Ednalda Umada, explica que essa faixa etária é marcada por intensas mudanças, que englobam questões físicas, psicológicas, emocionais e sociais. Essas tranformações podem causar alteração de humor e da percepção da realidade, levando adolescentes a acreditarem que são constantemente vigiados e julgados.
Umada aponta que, para evitar problemas com a imagem corporal e de convívio em grupo, é preciso estar atento no comportamento de adolescentes para que seja possível auxiliá-los e guiá-los no equilíbrio da concepção do mundo. Segundo ela, o ensino socioemocional é uma excelente ferramenta, aderida por escolas aturais, no suporte durantes essa fase da vida.
Fabiana Santana, também assessora pedagógica do programa Líder em Mim, aponta a importância do papel de educadores ao adotarem ações que estimule a interação social com alunos e entre eles próprios. Essas práticas, além de acolhê-los, cria um espaço que proporcionam trocas e experiências, que levam ao desenvolvimento emocional.
Espaços assim também proporcionam uma aproximação da realidade e auxilia na sociabilidade de adolescentes que, devido ao alto uso de redes sociais e tecnologias, tendem a desenvolver uma “intoxicação social”.
“As crianças e adolescentes acabam por se distanciar da sua própria realidade e viver em mundo fictício. Muitas vezes são afetados por sentimentos destrutivos como inveja, inferioridade, exclusão e fracasso por fazerem comparação o tempo todo.”
Ednalda Umada
Segundo Fabiana, o uso excessivo de redes sociais geram, além da diminuição de interações pessoais e de habilidades sociais, ansiedade, relacionada às interações e comentários do mundo digital, e o surgimento de sentimentos negativos, que afetam o bem-estar emocional.
A psicóloga e orientadora educacional do Poliedro Colégio, Mariana Viviani, aponta que é difícil apresentar apenas uma causa para o ódio e a violência, mas que as redes sociais expõem adolescentes a conteúdos com pouca regulamentação e filtro. “Assim, muitos ficam expostos à conteúdos inadequados para a idade ou que reforçam ideias e comportamentos estereotipados, preconceituosos e violentos”, diz ela.
Práticas pedagógicas para inclusão de adolescentes
Fabiana listou algumas práticas pedagógicas que auxiliam na inclusão social dos alunos. Veja quais são:
-
Encorajar os alunos a se defenderem e aos outros de forma segura e proativa;
-
Promover discussões em grupo sobre os impactos negativos do assédio, discriminação e bullying;
-
Ensinar estratégias para lidar com o estresse tóxico, que pode ser causado por situações de discriminação e exposição;
-
Incentivar a escuta empática entre os colegas, demonstrando interesse genuíno nas preocupações dos outros;
-
Criar um ambiente escolar onde todos se sintam valorizados e importantes;
-
Discutir a importância de buscar apoio quando necessário e oferecer ajuda aos colegas em dificuldades;
-
Praticar cenários de comunicação respeitosa e empática em sala de aula.

Crédito das imagens: arquivo pessoal
Tecnologias como ferramentas de aprendizagem para escolas
Em janeiro deste ano, foi aprovado pelo presidente Lula a Lei nº 15.100/2025, que restringe o de celulares dentro de escolas e determina ações que devem ser implementadas pelas instituições como estratégias para tratar o sofrimento psíquico e a saúde mental dos alunos. São essas ações:
-
Informar sobre os riscos, sinais e prevenção de sofrimento psíquico. Inclusa a utilização exagerada de aparelhos eletrônicos;
-
Oferecer treinamentos de tempos em tempos sobre os efeitos danosos do uso exagerado de celulares;
-
Disponibilizar espaço de escuta e acolhimento para estudantes e funcionários que estejam em sofrimento psíquico decorrente de uso exagerado de telas.
Mariana acredita que essa proibição deve servir como uma das estratégias para a educação do uso de tecnologias. Ela aponta que, apesar dos inúmeros benefícios apresentados pelos avanços tecnológicos, os maiores desafios apresentados são devidos ao uso inadequado, e para auxiliar no uso responsável, é preciso que escolas incluam em sua formação a educação sobre tecnologias e redes sociais.
Segundo Mariana, é possível montar um plano educacional que englobe questões como: a constituição e funcionamento de redes sociais; seu uso crítico; e quais são os benefícios e malefícios. Isso aliado a um plano de combate ao bullying, cyberbullying e incentivo da cultura de paz, que contemple estudantes, famílias e equipe pedagógica.
A pedagoga, psicopedagoga e coordenadora de orientação educacional dos anos finais do ensino fundamental e ensino médio do Poliedro Colégio São José dos Campos, Valéria Silva Moreira, aponta que é possível a utilização de redes sociais como ferramenta de aprendizado. No entanto, esta deve ser selecionada e supervisionada.
“Crianças e adolescentes estão em processo de amadurecimento e o desenvolvimento emocional pode ser afetado a partir de consumo excessivo das redes sociais em fases da vida em que ainda não tem discernimento para compreender o que as redes sociais apresentam e como as pessoas ali inseridas se comportam.”
Valéria Silva Moreira
Valéria acredita que, com uma boa curadoria de conteúdos, redes sociais como YouTube, Instagram e TikTok, são ferramentas que possibilitam a fixação de conteúdos, e podem ser utilizados como material de pesquisa. Ela ainda explica que essas plataformas, somadas a materiais robustos, podem contribuir para uma educação mais completa.
Leia também: Saúde mental dos adolescentes: como cuidar?
Jade Vieira
Jornalista