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Gênero crônica em sala de aula

Estratégias de ensino-aprendizagem

Os diversos gêneros devem ser contemplados nas aulas de Língua Portuguesa. A crônica em sala de aula pode ser abordada de maneira interessante e produtiva com os alunos.
A crônica em sala de aula pode mostrar aos alunos as características desse gênero, além de estimulá-los a produzirem seus próprios textos
A crônica em sala de aula pode mostrar aos alunos as características desse gênero, além de estimulá-los a produzirem seus próprios textos
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Professor, o trabalho com os diversos gêneros literários em sala de aula é muito importante. Muitas vezes privilegiamos um tipo de texto em detrimento de outro, o que em pouco contribui para a formação literária de nossos alunos. Sendo assim, alguns gêneros podem ser ricamente trabalhados. Utilizar a crônica em sala de aula, por exemplo, pode trazer resultados positivos para o processo de ensino e aprendizado.

A palavra crônica denuncia as características do gênero: do grego Chronikós, advém de Cronos, deus grego que simbolizava o tempo. No início da era cristã, a palavra chronica nomeava a narração de histórias cujos acontecimentos se davam em ordem cronológica, sendo assim, um breve registro de eventos. O molde perpetuou-se, e é imediata a associação da crônica aos fatos do cotidiano, contados de maneira breve, relatando curtos períodos de tempo, geralmente sucedidos em não mais que um dia. Por apresentar características bem demarcadas, dificilmente lemos um texto desse gênero sem o perceber, suas particularidades são notáveis, o que pode ajudar os alunos em seu reconhecimento. Por serem curtas, podem ser contempladas sem prejuízo de tempo, além do mais, representam situações ligadas ao cotidiano das pessoas, estabelecendo uma sintonia interessante com a turma, já que seu objeto é próximo às questões triviais do dia a dia.

Vários foram os escritores que se dedicaram ao estilo, entre eles, o gaúcho Moacyr Scliar. Para nossa proposta de aula de Redação, escolhemos uma crônica de sua autoria, publicada no jornal Folha de São Paulo, no dia 21 de maio de 2007, intitulada De volta ao primeiro beijo:

"O primeiro beijo é uma coisa muito falada. Sem dúvida é uma experiência muito marcante, inesquecível. O primeiro beijo é uma maturação, uma descoberta. Ao mesmo tempo, para alguns, ele pode ser um monstro assustador", diz o cineasta Esmir Filho, diretor de "Saliva". O filme conta como Marina, uma garota de 12 anos, é pressionada a dar o seu primeiro beijo no experiente Gustavo.”
Folhateen

TINHA ACABADO de ler a matéria sobre o primeiro beijo, no pequeno apartamento em que morava desde que ficara viúvo, anos antes, quando (coincidência impressionante, concluiria depois) o telefone tocou. Era uma mulher, de voz fraca e rouca, que ele de início não identificou: - Aqui fala a Marília -disse a voz. Deus, a Marília! A sua primeira namorada, a garota que ele beijara (o primeiro beijo de sua vida) décadas antes! De imediato recordou a garota simpática, sorridente, com quem passeava de mãos dadas. Nunca mais a vira, ainda que frequentemente a recordasse -e agora, ela lhe ligava. Como que adivinhando o pensamento dele, ela explicou: - Estou no hospital, Sérgio. Com uma doença grave... E queria ver você. Pode ser? - Claro -apressou-se ele a dizer- eu vou aí agora mesmo. Anotou rapidamente o endereço, vestiu o casaco, saiu, tomou um táxi. No caminho foi evocando aquele namoro, que infelizmente não durara muito tempo -o pai dela, militar, havia sido transferido para o Norte, com o que perdido o contato -mas que o marcara profundamente. Nunca a esquecera, ainda que depois tivesse beijado várias outras moças, uma das quais se tornara a sua companheira de toda a vida, mãe de seus três filhos, avó de seus cinco netos. E não a esquecera por causa daquele primeiro beijo, tão desajeitado quanto ardente.
Chegando ao hospital foi direto ao quarto. Bateu; uma moça abriu-lhe a porta, e era igual à Marília: sua filha. Ele entrou e ali estava ela, sua primeira namorada. Quase não a reconheceu. Envelhecida, devastada pela doença, ela mal lembrava a garota sorridente que ele conhecera. Consternado, aproximou-se, sentou-se junto ao leito. A filha disse que os deixaria a sós: precisava falar com o médico.
Olharam-se, Sérgio e Marília, ele com lágrimas correndo pelo rosto. - Você sabe por que chamei você aqui? -perguntou ela, com esforço. - Porque nunca esqueci você, Sérgio. E nunca esqueci o nosso primeiro beijo, lembra? Na porta da minha casa, depois do cinema... - Claro que lembro, Marília. Eu também nunca esqueci você... - Pois eu queria, Sérgio... Eu queria muito... Que você me beijasse de novo. Você sabe, os médicos não me deram muito tempo... E eu queria levar comigo esta recordação...
Ele levantou-se, aproximou-se dela, beijou os lábios fanados. E aí, como por milagre, o tempo voltou atrás e de repente eles eram os jovenzinhos de décadas antes, beijando-se à porta da casa dela. Mas a emoção era demais para ele: pediu desculpas, tinha de ir. A filha, parada à porta do quarto, agradeceu-lhe: você fez um grande bem à minha mãe. E acrescentou, esperançosa: - Acho que ela agora vai melhorar. Não melhorou. Na semana seguinte, Sérgio viu no jornal o convite para o enterro. Mas, ao contrário do que poderia esperar, apenas sorriu. Tinha descoberto que o primeiro beijo dura para sempre. Ou pelo menos assim queria acreditar.

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Moacyr Scliar

Moacyr Scliar escreveu diversas crônicas nos jornais Folha de São Paulo e no Zero Hora, de Porto Alegre *
Moacyr Scliar escreveu diversas crônicas nos jornais Folha de São Paulo e no Zero Hora, de Porto Alegre *

Ao trabalhar a crônica em sala de aula com seus alunos, eles deverão ser informados dos pontos de contato existentes entre a crônica e o gênero jornalístico, formando assim o que chamamos de gênero híbrido, por apresentar características próprias tanto do jornalismo quanto da Literatura. Faça a interpretação do texto sugerido e peça que a turma identifique os principais elementos que o classifiquem como uma crônica. Lembre-se de que na crônica há espaço para o humor, a crítica social e política, assim como para as digressões líricas do autor, visto que ela não precisa estar necessariamente vinculada a um tempo historicamente determinado e à narração sucessiva dos fatos.

A crônica de Moacy Scliar deve ser apenas o pontapé inicial. Peça que os alunos pesquisem outros textos e que produzam crônicas a partir dos estudos realizados, estimulando, assim, a produção textual. Os textos podem ser publicados em um fanzine ou, se a turma preferir, crie um blog. Existem também outras ferramentas que permitem a publicação gratuita de conteúdo na internet, como o site wordpress.com, o Blogger e o Tumblr. Bom trabalho!

*A imagem que ilustra este artigo é capa do livro Contos e crônicas para ler na escola, de Moacyr Scliar, Editora Objetiva.


Por Luana Castro
Graduada em Letras

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