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As contradições da expansão marítima

Estratégias de ensino-aprendizagem

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A expansão marítima vista a partir dos valores e idéias presentes no início da Idade Moderna.


O aprendizado sobre as grandes navegações usualmente retoma as condições políticas e econômicas que marcaram a passagem da Idade Média para a Idade Moderna. Em geral, os entraves do desenvolvimento comercial europeu são explicados pelas antigas práticas feudais que impediam o desenvolvimento comercial, a falta de moedas, a descentralização política e o monopólio exercido por árabes e italianos que inflacionavam o valor das especiarias.

Contudo, o professor pode explorar essa questão em uma nova perspectiva quando os valores e a cultura da Idade Moderna são questionados à luz de costumes, hábitos e crenças que não se apartaram radicalmente do período medieval. Afinal de contas, seria mesmo a simples necessidade econômica um fator capaz de impelir a população européia a se arriscar por águas desconhecidas para ampliar seus lucros e horizontes? Essa poderia ser uma questão inicial para uma aula sobre o assunto.

De fato, as razões econômicas não podem ser excluídas do bojo explicativo ligado às grandes navegações. No entanto, o professor pode demonstrar o significado dessa nova empreitada sob o olhar de homens influenciados por antigas narrativas míticas e relatos fantasiosos que falavam de terras distantes cercadas por riquezas, exuberância e perigos inimagináveis. Um bom exemplo disso pode ser encontrado nos famosos relatos de Marco Pólo (1245 – 1324), navegador italiano que viajou pelo Oriente.

Em “O livro das maravilhas”, esse navegador imprime um tom mítico que oferece na navegação uma incrível oportunidade de conhecer as belezas de uma terra paradisíaca, que poderia na mente dos homens cristãos daquela época instigar a procura de um “novo Éden”. Em certa altura do texto Marco Pólo diz:

“fizera-se fazer um belíssimo jardim, com todos os frutos e árvores que soubera encontrar e, ao redor daqueles, diversos e vários palácios e casas, adornados com trabalhos em ouro, pinturas, e equipados com tecidos de seda. Ali, por algumas canaletas que desembocavam em diversas partes desses palácios, se via correr vinho, leite e mel e água claríssima e ali se fizera morar donzelas graciosas e belas, que sabiam cantar e tocar qualquer instrumento e dançar”

Por meio dessa citação, o professor pode destacar como o relato de Marco Pólo abraça de maneira harmônica essa concepção paradisíaca ao contar de uma terra distante onde várias das preciosas especiarias valorizadas no mercado europeu eram abundantes. Se preferir, explicando previamente os traços gerais do comércio europeu entre os séculos XV e XVI, o professor pode reforçar essa mesma questão levantada por meio de uma atividade a ser respondida por toda a classe.

Paralelamente, essa visão pode ser contraposta com os argumentos encontrados nos bestiários medievais, livros que descreviam e desenhavam a presença de feras enormes que habitavam as águas dos mares distantes. Não sendo um tipo de literatura desconhecida na época das grandes navegações, podemos ver nesse tipo de manifestação uma concepção oposta que descrevia o desconhecido como um lugar repleto de perigo e criaturas terríveis.

Para exemplificar esse tipo de questão, o professor pode analisar uma interessante gravura proveniente destes bestiários. Sugestivamente, oferecemos logo abaixo uma imagem que faz alusão a uma grande criatura do mar chamada “peixe-serra”, que possuía a capacidade de afundar grandes embarcações.





Combinado as análises do relato de Marco Pólo e a gravura, o professor tem condições de demonstrar os valores contraditórios que se movimentavam em tal contexto histórico. Para fora de uma perspectiva restritamente política e econômica, os alunos podem ver as questões e valores que se desenvolviam no momento em que os europeus se lançavam ao mar.


Por Rainer Sousa
Graduado em História
Equipe Brasil Escola


História - Estratégias de Ensino - Educador - Brasil Escola

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