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Conto de mistério na voz de Lygia Fagundes Telles

Estratégias de ensino-aprendizagem

O trabalho com o conto de mistério, de Lygia Fagundes Telles, ajudará os educandos a comporem um conto como produção textual.
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Estimado educador, em um dos proveitosos encontros que tivemos, pudemos lhe apresentar algumas sugestões acerca do trabalho com o conto, e esse, de forma subsequente, transformando-se em linguagem dramática. Assim, para acessá-lo, basta clicar em “O conto se transformando em teatro”.

Dessa forma, a fim de continuar nosso trabalho em auxiliá-lo cada vez mais a despertar a habilidade em seus alunos para produzirem um conto que atenda a seus reais propósitos, sugerimos agora um trabalho com um conto de mistério, cuja autoria é de ninguém menos que Ligya Fagundes Telles. O conto é intitulado “As formigas” e seguem abaixo alguns fragmentos (em razão de se tratar de um conto um tanto quanto extenso):

As formigas

Quando minha prima e eu descemos do táxi já era quase noite. Ficamos imóveis diante do velho sobrado de janelas ovaladas, iguais a dois olhos tristes, um deles vazado por uma pedrada. Descansei a mala no chão e apertei o braço da prima.

- É sinistro.

Ela me impeliu na direção da porta. Tínhamos outra escolha? Nenhuma pensão nas redondezas oferecia um preço melhor a duas pobres estudantes, com liberdade de usar o fogareiro no quarto, a dona nos avisara por telefone que podíamos fazer refeições ligeiras com a condição de não provocar incêndio. Subimos a escada velhíssima, cheirando a creolina.

- Pelo menos não vi sinal de barata – disse minha prima.

A dona era uma velha balofa, de peruca mais negra do que a asa da graúna. Vestia um desbotado pijama de seda japonesa e tinha as unhas aduncas recobertas por uma crosta de esmalte vermelho-escuro descascado nas pontas encardidas. Acendeu um charutinho.

- É você que estuda medicina? – perguntou soprando a fumaça na minha

direção.

- Estudo direito. Medicina é ela.

A mulher nos examinou com indiferença. Devia estar pensando em outra coisa quando soltou uma baforada tão densa que precisei desviar a cara. A saleta era escura, atulhada de móveis velhos, desparelhados. No sofá de palhinha furada no assento, duas almofadas que pareciam ter sido feitas com os restos de um antigo vestido, os bordados salpicados de vidrilho.

- Vou mostrar o quarto, fica no sótão – disse ela em meio a um acesso de tosse. Fez um sinal para que a seguíssemos.

- O inquilino antes de vocês também estudava medicina, tinha um caixotinho de ossos que esqueceu aqui, estava sempre mexendo neles.

Minha prima voltou-se: – Um caixote de ossos?

A mulher não respondeu, concentrada no esforço de subir a estreita escada de caracol que ia dar no quarto. Acendeu a luz. O quarto não podia ser menor, com o teto em declive tão acentuado que nesse trecho teríamos que entrar de gatinhas. Duas camas, dois armários e uma cadeira de palhinha pintada de dourado. No ângulo onde o teto quase se encontrava com o assoalho, estava um caixotinho coberto com um pedaço de plástico. Minha prima largou a mala e pondo-se de joelhos puxou o caixotinho pela alça de corda. Levantou o plástico. Parecia fascinada.

- Mas que ossos tão miudinhos! São de criança? – Ele disse que eram de adulto. De um anão.

- De um anão? É mesmo, a gente vê que já estão formados… Mas que maravilha, é raro à beça esqueleto de anão. E tão limpo, olha aí admirou-se ela. Trouxe na ponta dos dedos um pequeno crânio de uma brancura de cal. – Tão perfeito, todos os dentinhos!

- Eu ia jogar tudo no lixo, mas se você se interessa pode ficar com ele. O banheiro é aqui ao lado, só vocês é que vão usar, tenho o meu lá embaixo. Banho quente, extra. Telefone, também. Café das sete às nove, deixo a mesa posta na cozinha com a garrafa térmica, fechem bem a garrafa – recomendou coçando a cabeça. A peruca se deslocou ligeiramente. Soltou uma baforada final: – Não deixem a porta aberta senão meu gato foge.

Ficamos nos olhando e rindo enquanto ouvíamos o barulho dos seus chinelos de salto na escada. E a tosse encatarrada. Esvaziei a mala, dependurei a blusa amarrotada num cabide que enfiei num vão da venezian,. prendi na parede, com durex, uma gravura de Grassmann e sentei meu urso de pelúcia em cima do travesseiro. Fiquei vendo minha prima subir na cadeira, desatarraxar a lâmpada fraquíssima que pendia de um fio solitário no meio do teto e no lugar atarraxar uma lâmpada de duzentas velas que tirou da sacola. O quarto ficou mais alegre. Em compensação, agora a gente podia ver que a roupa de cama não era tão alva assim, alva era a pequena tíbia que ela tirou de dentro do caixotinho. Examinou-a. Tirou uma vértebra e olhou pelo buraco tão reduzido como o aro de um anel. Guardou-as com a delicadeza com que se amontoam ovos numa caixa.

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- Um anão. Raríssimo, entende? E acho que não falta nenhum ossinho, vou trazer as ligaduras, quero ver se no fim da semana começo a montar ele.

Abrimos uma lata de sardinha que comemos com pão, minha prima tinha sempre alguma lata escondida, costumava estudar até a madrugada e depois fazia sua ceia. Quando acabou o pão, abriu um pacote de bolacha Maria.

- De onde vem esse cheiro? – perguntei farejando. Fui até o caixotinho, voltei, cheirei o assoalho.

- Você não está sentindo um cheiro meio ardido?

- É de bolor. A casa inteira cheira assim – ela disse. E puxou o caixotinho para debaixo da cama.

No sonho, um anão louro de colete xadrez e cabelo repartido no meio entrou no quarto fumando charuto. Sentou-se na cama da minha prima, cruzou as perninhas e ali ficou muito sério, vendo-a dormir. Eu quis gritar, tem um anão no quarto!, mas acordei antes. A luz estava acesa. Ajoelhada no chão, ainda vestida, minha prima olhava fixamente algum ponto do assoalho.

- Que é que você está fazendo aí? – perguntei.

- Essas formigas. Apareceram de repente, já enturmadas. Tão decididas, está vendo?

Levantei e dei com as formigas pequenas e ruivas que entravam em trilha espessa pela fresta debaixo da porta, atravessavam o quarto, subiam pela parede do caixotinho de ossos e desembocavam lá dentro, disciplinadas como um exército em marcha exemplar.

- São milhares, nunca vi tanta formiga assim. E não tem trilha de volta, só de ida – estranhei.

- Só de ida.

Contei-lhe meu pesadelo com o anão sentado em sua cama.

- Está debaixo dela – disse minha prima e puxou para fora o caixotinho.

Levantou o plástico.

- Preto de formiga! Me dá o vidro de álcool.

- Deve ter sobrado alguma coisa aí nesses ossos e elas descobriram, formiga descobre tudo. Se eu fosse você, levava isso lá pra fora.

- Mas os ossos estão completamente limpos, eu já disse. Não ficou nem um fiapo de cartilagem, limpíssimos. Queria saber o que essas bandidas vêm fuçar aqui.

Respingou fartamente o álcool em todo o caixote. Em seguida, calçou os sapatos e, como uma equilibrista andando no fio de arame, foi pisando firme, um pé diante do outro na trilha de formigas. Foi e voltou duas vezes. Apagou o cigarro. Puxou a cadeira. E ficou olhando dentro do caixotinho.

- Esquisito. Muito esquisito. – O quê?

- Me lembro que botei o crânio em cima da pilha, me lembro que até calcei ele com as omoplatas para não rolar. E agora ele está aí no chão do caixote, com uma omoplata de cada lado. Por acaso você mexeu aqui?

[...]

Como não poderia deixar de ser, uma leitura atenta com a turma se torna um passo essencial, fazendo as pausas necessárias, as entonações convenientes, sobretudo porque precisam mais do que nunca estarem atentos para tais aspectos que se demarcam nesse contexto. Assim, à medida que for lendo, procure deixá-los a par de determinados elementos que caracterizam essa modalidade textual, pois eles mesmos farão um conto.

Nesse sentido, desperte-os para a caracterização do ambiente, pontuando acerca das características físicas do lugar, tais como: janelas ovaladas, cheiro de bolor, quarto no sótão, escada em forma de espiral, enfim, tudo que achar conveniente é importante ressaltar ali, juntos, promovendo uma discussão coletiva.  Depois, não se esquecendo da caracterização dos personagens, como a unha esmaltada e encardida da dona da pensão, bem como o modo do qual ela se utilizou para mostrar o ambiente em que ficariam as duas estudantes e como tudo seria conduzido... até o banho quente, que se assim fosse teria que ser extra, em se tratando da forma de pagamento. Partindo para os acontecimentos, pontue também sobre o aparecimento das formigas somente à noite, e mais: por que elas, depois de mortas, como um exército massacrado, voltaram a aparecer novamente. O esqueleto, que coisa estranha, do nada aparecera quase montado?

No momento em que estiver lendo, educador(a), faça gestos, provoque um clima de mistério, até mesmo por meio de sua voz, levante hipóteses, enfim. Como pôde perceber, todos os posicionamentos remetem para um clima que provoca questionamento, dúvida, suspense, elementos esses que farão a diferença no momento em que eles estiverem compondo a produção que será apresentada na mostra cutural.   

Lembrando-se sempre que o(a) artista, no momento da leitura, é você, ninguém mais, dessa forma, desperte o artista que há em você, que há na sua habilidade enquanto docente e mãos à obra!!!

Bom trabalho é o que lhe desejamos sempre!


Por Vânia Duarte
Graduada em Letras

O conto de mistério, de Lygia Fagundes Telles, caracteriza-se como uma importante proposta metodológica
O conto de mistério, de Lygia Fagundes Telles, caracteriza-se como uma importante proposta metodológica
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