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Discutindo a figura de Calabar

Estratégias de ensino-aprendizagem

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A peça sobre Calabar é um exemplo vivo sobre o exercício de interpretação do passado.


Apesar de não ser escrito por poucos homens, o passado histórico sempre desperta nossa atenção para determinados sujeitos que tiveram um papel fundamental em certas situações. Nesse âmbito, o estudo das invasões holandesas ao Brasil sempre é tomado por um interesse especial à contribuição de Domingos Calabar no sucesso de algumas das investidas militares que facilitaram a vitória estrangeira contra as tropas ibéricas presentes no espaço colonial.

Tal destaque é justificado pelo fato de que, durante um bom tempo, Calabar foi considerado um traidor ao permitir que estrangeiros adentrassem o território brasileiro para salvaguardar seus interesses mercantilistas. Contudo, a visão sobre essa mesma personagem histórica ganha um tom diferenciado quando a peça de teatro “Calabar – O elogio da traição”, redigida por Chico Buarque e Ruy Guerra, tenta discutir se não haveria outro modo de compreender as ações de Calabar.

Sem dúvida, mais do que reverenciar a ação revisionista dos autores da obra, o professor tem amplas condições de organizar um debate por meio do qual os alunos possam discutir qual julgamento seria apropriado à Calabar e, principalmente, debater o momento histórico que leva Chico e Ruy a serem incomodados por essa questão do Brasil Colônia. Dessa forma, uma aula de história como essa pode dar o mais claro exemplo sobre como os interesses presentes influenciam nossa visão sobre o passado.

Inicialmente, o professor pode requer à classe a formulação de um quadro-resumo onde eles possam pontuar os contrastes mais nítidos contidos nas colonizações lusitana e holandesa. Por meio das informações coletadas em pesquisa, o docente monta um quadro a partir da fala de cada um dos alunos. Com isso, podemos abrir o debate para que eles possam ver e detectar qual tipo de colonização seria mais interessante à população brasileira.

Salientando as liberdades e direitos concedidos pelos holandeses, podemos supor que a maioria dos alunos defenda a atitude de Calabar e, conseguintemente, não acredite que ele possa ser visto como traidor. No entanto, a simples “justiça histórica” poderia justificar o fato de, séculos mais tarde, dois escritores revisitarem o passado colonial por meio da elaboração de uma peça de teatro?

Para tentar entender, ou pelo menos buscar os interesses que explicam a composição desta obra, o professor deve colocar seus alunos à mercê do período em que a obra sobre Calabar foi produzida. Nesse ponto, o desenvolvimento da ditadura militar no Brasil e a discussão sobre uma “colonização” do país pelos EUA são referencias fundamentais para que o contexto da obra seja revelado. Para tanto, sugerimos a leitura do seguinte trecho da peça:

“ Um dia este país há de ser independente. Dos holandeses, dos espanhóis, dos portugueses... Um dia todos os países poderão ser independentes, seja do que for. Mas isso requer muito traidor. Muito Calabar. E não basta enforcar, retalhar, picar... Calabar não morre. Calabar é cobra-de-vidro. E o povo jura que cobra-de-vidro é uma espécie de lagarto que quando se corta em dois, três, mil pedaços, facilmente se refaz.” (BUARQUE & GUERRA, 1973:133)

Por meio dessa interessante parcela do texto, os alunos podem perceber que os autores acreditam que o problema da colonização não foi resolvido. Dessa forma, a nação precisaria de muitos outros “Calabares”. Ou seja, de personagens históricos que fizessem o que fosse necessário para que as condições de vida da nação pudessem ganhar algum tipo de melhora. Com isso, podemos estabelecer a ponte que poderia relacionar o interesse no tema com o cenário político experimentado na época.


Por Rainer Sousa
Graduado em História
Equipe Brasil Escola


História - Estratégias de Ensino - Educador - Brasil Escola

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