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O valor histórico de Lampião

Estratégias de ensino-aprendizagem

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Lampião: figura histórica que buscou no crime uma maneira de superar o descaso das autoridades da época.



O trabalho com as revoltas do período oligárquico sempre despertam uma interessante discussão no momento em que demonstram o descompasso existente entre o Estado e as classes populares da época. A utilização da máquina pública como instrumento atrelado aos interesses da elite agro-exportadora promoveu a criação de sérios problemas sociais que se manifestaram através de diferentes revoltas que surgiram no campo e nos centros urbanos do país.

Entre todas essas revoltas, o cangaço desperta o interesse dos alunos ao tratar da polêmica figura de Lampião. Sendo ele um personagem histórico popular, acabou tendo sua trajetória atrelada a determinados discursos que concedem certo heroísmo à sua figura. Grosso modo, colocam o cangaço e seu “representante maior” como partes integrantes de um movimento dotado de uma ação política que agride as elites e protege os menos favorecidos.

Contudo, essa representação de um Lampião engajado parte de falas que imputam um determinado valor distanciado de pesquisas e documentos que dão voz à questão do cangaço. A historiadora Maria Isaura de Queiroz, por exemplo, autora do livro “História do Cangaço” demonstra que Lampião era uma figura comprometida com seus interesses particulares e não reafirmava em nenhum momento lutar em prol de um determinado grupo social em detrimento de outro.

Um exemplo dessa perspectiva pode ser vista em uma “carta de cobrança” onde o cangaceiro ameaçava as autoridades locais em troca de dinheiro. No livro Quem foi Lampião, do autor Frederico Pernambucano de Mello, há a reprodução de uma carta do cangaceiro onde dizia:

“Eu pretendo é dinheiro. Já foi um aviso aí para os senhores, se por acaso resolver me mandar a importância que vos pedi, eu evito a entrada. Porém, não vindo esta importância eu entro aí...” (1993, p.142, Adaptado)

Utilizando esse documento, podemos perceber que as ações criminosas de Lampião não tinham qualquer pretensão de promover alguma espécie de justiça social. Outra passagem em que essa mesma perspectiva pode ser exposta em sala de aula refere-se a outro evento em que Lampião foi convocado para lutar contra as forças da Coluna Prestes, um movimento de militares que pretendia derrubar o regime oligarca empreendendo a formação de um levante que percorreria diferentes cidades do país.

A participação de Lampião na luta contra os militares da Coluna e o bilhete do próprio cangaceiro mostra um descompasso entre a forma com que Lampião agiu e a representação de sua trajetória. Para demonstrar essa diferença, o professor de História pode trabalhar em parceria com o professor de Inglês oferecendo aos alunos a tradução e a interpretação da canção “Lampião”, da banda Eyes of Shiva. Na letra, de 2004, temos um exemplo desse processo de heroicização do cangaceiro nordestino.

Dessa maneira, o professor demonstra como as noções do passado perpassam por diferentes opiniões em que um mesmo fato ou personagem é compreendido de maneiras distintas. Ao não reconhecer os limites impostos pelo Estado e pelas leis, o cangaceiro Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, acabou sendo uma conseqüência extrema ao descaso de governos alheios aos problemas sociais do país.


Por Rainer Sousa
Graduado em História
Equipe Brasil Escola


História - Estratégias de Ensino - Educador - Brasil Escola

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