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Os usos do presente do indicativo

Estratégias de ensino-aprendizagem

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Os usos do tempo presente do indicativo ampliam a noção acerca de alguns conceitos básicos
Os usos do tempo presente do indicativo ampliam a noção acerca de alguns conceitos básicos

Que a classe gramatical representada pelos verbos é um tanto complexa é, sem dúvida, uma afirmação indiscutível. Mas um outro fator parece sobrepor esta ideia, que, a princípio, denota algo negativo – o fato de os verbos serem essenciais na elaboração das ideias, dos pensamentos: daí a importância de compreendê-los de forma efetiva e ao mesmo tempo conhecer suas peculiaridades, a fim de empregá-los corretamente.    

Levando tais considerações para o contexto escolar, quando se fala do ensino dos verbos, muitas vezes nos deparamos com um cenário cuja prática se volta muito mais para a famosa “decoreba” do que para a apreensão propriamente dita. Tal fato parece ganhar notoriedade em se tratando dos verbos regulares, nos quais o aluno, de posse de um paradigma constante, consegue conjugá-los de forma correta, levando em conta as formas adequadas às respectivas pessoas gramaticais. Mas e quando o assunto se volta para os verbos defectivos, anômalos, entre outros? Será que os aprendizes chegam ao final de sua trajetória escolar entendendo o porquê de o verbo “pedir” virar peço, em vez de manter o mesmo radical (“-ped”)? Para não falar nas outras situações, não é verdade?

Como não seria viável elencar todas elas, o presente artigo tem por finalidade abordar acerca dos usos do tempo presente do modo indicativo, no sentido de retratar a importância que se deve dar à compreensão de tal tempo, ou seja, de compreender que ele ganha uma dimensão muito maior do que aquele conceito de fato momentâneo, de algo relacionado ao momento da fala.  

Como sugestão, eis que se evidencia o trabalho com o poema “Nota Social”, de Carlos Drummond de Andrade, o qual se encontra descrito a seguir:

NOTA SOCIAL

1 - O poeta chega na estação.
2 - O poeta desembarca.
3 - O poeta toma um auto.
4 - O poeta vai para o hotel.
E enquanto ele faz isso
como qualquer homem da terra,
uma ovação o persegue
feito vaia.
Bandeirolas
abrem alas.
Bandas de música. Foguetes.
Discursos. Povo de chapéu de palha.
Máquinas fotográficas assestadas.
Automóveis imóveis.
Bravos...
O poeta está melancólico.

Numa árvore do passeio público
(melhoramento da atual administração)
árvore gorda, prisioneira
de anúncios coloridos,
árvore banal, árvore que ninguém vê
canta uma cigarra.
Canta uma cigarra que ninguém ouve
um hino que ninguém aplaude.
Canta, no sol danado.

26 - O poeta entra no elevador
27 - o poeta sobe
28 - o poeta fecha-se no quarto.
O poeta está melancólico.

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Carlos Drummond de Andrade

Com base nos versos usados no poema, é possível solicitar que os alunos analisem em que tempo estão. Revelada a percepção de que todos se encontram no presente do indicativo, o educador poderá instigar o seguinte questionamento: se se trata de uma sucessão de fatos ocorridos, consequentemente as formas verbais deveriam estar expressas no pretérito perfeito. Por que se encontram no presente? A discussão (vista no bom sentido) estará formada. Sendo assim, é importante que o educador se atenha a todos os posicionamentos ora elencados e, posteriormente, faça com que percebam que a opção do enunciador (no caso, o eu lírico) é a de enfatizar a simultaneidade entre o evento e a narração, entre as ações ocorridas e a apresentação delas. Tal recurso permite ao interlocutor, enquanto realiza a leitura, visualizar as cenas passo a passo, de forma a conferir maior vivacidade ao discurso.

Outro aspecto, também relevante, diz respeito aos versos que vão do cinco ao quinze, e depois do dezessete ao vinte e cinco, nos quais constatamos a mesma simultaneidade entre as ações do poeta e a ovação do povo acerca dessas mesmas ações e do canto da cigarra.

Feito isso, que tal indagar se os alunos conhecem outros usos do tempo presente, que não somente aquele restrito ao uso convencional – retratando ações ocorridas no momento da enunciação.

Para tanto, o educador pode se valer de algumas teorias, no sentido de enfatizar que esse tempo está também relacionado a outros sentidos, entre eles:

* O de retratar processos habituais, regulares, ou que possuem validade permanente: Tomo banho todos os dias...

* O de indicar um fato futuro próximo, tido como uma realização certa. Nesse caso é sempre bom ressaltar a presença de um elemento indicador de futuro, no caso um advérbio: Viajo depois de amanhã.

* Outro objetivo é o de indicar uma ação simultânea à fala – como é o caso do verbo “estar” acompanhado do gerúndio, revelando expressões tipicamente manifestadas na oralidade, como por exemplo: estou estudando/ estou assistindo a um filme/ estou conversando com alguns amigos, entre outros. 

Ao final das explicações, pode ser sugerida uma produção textual com base no poema lido, desta vez com outros personagens (um fato ocorrido entre o professor e os alunos) e um outro elemento participando da ação destes, como, por exemplo, um elemento da natureza. Assim, continuarão percebendo a simultaneidade manifestada entre as ações que porventura se desenvolverão.


Por Vânia Duarte
Graduada em Letras

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