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A voz poética despertando valores humanos

Estratégias de ensino-aprendizagem

O trabalho com a voz poética, cuja temática desperta valores humanos, revela sua significativa eficácia.
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Vivemos hoje em meio a uma evolução tecnológica avassaladora, cujos benefícios parecem, concomitantemente, estabelecer um “diálogo” com as conquistas negativas advindas de todo esse avanço.  O que se vê, sobretudo na comunidade familiar, grupo primeiro a que pertencem os educandos, é um distanciamento cada vez mais evidente dos membros componentes, isto é, cada um parece ocupar seu espaço não de maneira coletiva, coesa, unida, mas de forma totalmente individual.

Nesse sentido, quando no título se verifica a questão do trabalho com os valores humanos, tal intenção se aplica justamente em decorrência desse aspecto, pois essa fragmentação faz com que não haja espaço para o diálogo, para a troca de experiências de um dia que passou, de um acontecimento que se materializou, enfim, de nada “visivelmente” importante.  Entra aí o trabalho do educador, pois, por mais que pareça absurdo, muitas vezes inaceitável, ele acaba tendo que desenvolver, de uma forma ou de outra, seu trabalho de modo a oportunizar momentos para que haja esse resgate, senão de forma íntegra, ao menos de maneira parcial – o que, não raras as vezes, evidencia a inevitável “transferência de responsabilidades”, cuja função do educador, em vez de específica, acaba tornando-se múltipla. Assim, de forma contextual, esses momentos propícios acabam materializando-se por meio da leitura literária, por meio de debates, seminários, leitura e interpretações textuais, textos poéticos, enfim, muitos são os recursos que possibilitam esse tão valoroso espaço dentro do ambiente de sala de aula. Com base no último deles é que se constrói a finalidade da discussão a que nos propusemos, ou seja, o trabalho com a poesia.

Tendo em vista que a representatividade da Literatura define-se de forma indiscutível como a arte da realidade, a arte da vida, elegemos ninguém menos que José Paulo Paes e Carlos Drummond de Andrade para apresentarmos algumas sugestões metodológicas dotadas deuma eficácia ímpar, as quais, bem trabalhadas, poderão render “frutos” e fazer a diferença nas relações interpessoais, no modo de agir, pensar, já não falando sobre as demais posturas. Assim, vamos às criações:

Ao Shopping Center

Pelos teus círculos

vagamos sem rumo

nós almas penadas

do mundo do consumo.

[...]

Cada loja é um novo

Prego em nossa cruz.

Por mais que compremos

Estamos sempre nus

Nós que por teus círculos

Vagamos sem perdão

à espera(até quando?)

da Grande Liquidação.

José Paulo Paes

EU, Etiqueta

Em minha calça está grudado um nome

Que não é meu de batismo ou de cartório

Um nome... estranho.

Meu blusão traz lembrete de bebida

Que jamais pus na boca, nessa vida,

Em minha camiseta, a marca de cigarro

Que não fumo, até hoje não fumei.

Minhas meias falam de produtos

Que nunca experimentei

Mas são comunicados a meus pés.

Meu tênis é proclama colorido

De alguma coisa não provada

Por este provador de longa idade.

Meu lenço, meu relógio, meu chaveiro,

Meu isso, meu aquilo

Não pare agora... Tem mais depois da publicidade ;)

[...]

E fazem de mim homem-anúncio itinerante,

Escravo da matéria anunciada.

Estou, estou na moda.

É duro andar na moda, ainda que a moda

Seja negar minha identidade.

[...]

Por me ostentar assim, tão orgulhoso

De ser não eu, mas artigo industrial,

Peço que meu nome retifiquem.

Já não me convém o título de homem.

Meu nome novo é Coisa.

Eu sou a Coisa, coisamente.

Carlos Drummond de Andrade

Após uma leitura atenciosa, pausada, entonada de ambas, você, caro (a) educador (a), poderá propor um debate regado que, além de ampliar de forma significativa a capacidade argumentativa, o repertório, aprimorar o senso crítico, ainda promoverá a oportunidade, sobretudo, daqueles que se refugiam, silenciam-se por timidez ou por qualquer outro sentimento, que aqui não vem ao caso.

Concluída essa etapa, procurando franquear o espaço para novas discussões, agora não mais orais, mas escritas, algumas questões acerca da temática explorada nos poemas parecem denotar sua relevância. Ei-las, portanto:

a –Ambos exploram sobre um assunto que se encontra bastante presente na vida de muitas pessoas atualmente – o consumismo. Assim, o que você pensa sobre isso?

b – Há uns versos no poema de José Paulo Paes que retratam a seguinte mensagem:

Por mais que compremos

Estamos sempre nus [...]

Ao analisá-los, constatamos que ele revela a necessidade de o ser humano estar sempre em busca de algo novo, ou seja, nunca parece satisfeito (a), pois quanto mais compra, mais deseja comprar. Isso, para você, é bom ou ruim? Por que acha que essa situação acontece?

c –Já no poema de Carlos Drummond de Andrade há outros versos que nos dizem:

Meu blusão traz lembrete de bebida

Que jamais pus na boca, nessa vida,

Em minha camiseta, a marca de cigarro

Que não fumo, até hoje não fumei. [...]

Ele nos remete a outro fator que também leva ao consumismo: as propagandas. Muitas delas, principalmente as transmitidas pela televisão, acabam induzindo o ser humano a adotar um tipo de comportamento inadequado, como o tabagismo (o ato de fumar) e o próprio alcoolismo. Qual a sua opinião sobre esse fato?

d –Ainda fazendo referência ao segundo poema, principalmente quando analisamos os versos:

Estou, estou na moda.

É duro andar na moda, ainda que a moda

Seja negar minha identidade.

O que seria mais importante: estar na moda somente para acompanhar o que a sociedade exige ou sermos nós mesmos, isto é, termos uma identidade própria? Por quê?

Educador (a),

Por meio das elucidações aqui expostas, esperamos de alguma forma ter contribuído para a tomada de algumas posturas metodológicas que, porventura, poderão enriquecer seu laborioso ofício cotidiano.


Por Vânia Duarte
Graduada em Letras

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