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Linguística aplicada e o processo de formação das palavras em sala de aula

Estratégias de ensino-aprendizagem

Trabalhar a Linguística aplicada e o processo de formação das palavras em sala de aula trará incontáveis benefícios em relação ao ensino de gramática.
Linguística aplicada e a formação das palavras é uma das combinações perfeitas para o ensino de Língua Portuguesa
Linguística aplicada e a formação das palavras é uma das combinações perfeitas para o ensino de Língua Portuguesa
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A Linguística Aplicada é uma área que analisa e cria meios para solucionarmos os problemas referentes ao Português, seus elementos e seu uso no dia a dia. Talvez seja esse o campo mais indicado para que o ensino da língua portuguesa seja mais eficiente em sala de aula, uma vez que nós, educadores, estaremos nos aproximando de nossos alunos ao acessarmos a língua em movimento, ou seja, a dinamicidade da língua em funcionamento. O que é natural para qualquer falante será o nosso dado de análise para identificar, classificar e relacionar os elementos formais que regem a norma-padrão de nossa língua.

Tendo a Linguística aplicada como a nossa melhor ferramenta para o ensino de aspectos gramaticais de nossa língua materna, a ideia de hoje é traçar um projeto de aula que trabalhe estrutura e processos de formação das palavras a partir da função desses elementos na produção de sentido desejada pelo falante. Ao priorizarmos a função deles, estaremos evidenciando aos nossos alunos que aquele amontoado de regrinhas gramaticais contribui para nos expressarmos melhor. As regras gramaticais, portanto, deixarão de ser apenas mandamentos que precisam ser decoradas. A partir de agora, nossos alunos poderão assimilar as normas gramaticais pelo seu uso, pelos resultados que podemos obter pelo bom uso dos princípios estruturais de nossa língua.

A ideia desta proposta de aula é que, após a apresentação do conteúdo sobre estrutura e processos de formação das palavras, você, educador, mostre aos alunos, por meio de exercícios, como o conteúdo gramatical estudado é uma ferramenta extremamente útil para aprimorar a habilidade de interpretação de texto e, consequentemente, de produção textual.

Primeiramente, é importante que sejam revisados os aspectos que constituem o estudo da estrutura e dos processos de formação das palavras. Apenas para nos certificarmos de que não restam dúvidas em relação aos conceitos já estudados, vamos rever alguns pontos:

Para fixação dos elementos mórficos:

  • Desinências: morfemas indicadores das flexões das palavras variáveis.

Nominais: flexões de número-gênero (substantivos, adjetivos e pronomes): menina, meninas.

Verbais: flexões de número-pessoa e de modo-tempo: namorar, namoramos, namorávamos, namorassem.

  • Vogal temática: morfema vocálico que se acrescenta a determinados radicais antes das desinências. Radical + vogal temática= tema.

  • Sufixo: afixos que se acrescentam depois do radical; modifica o sentido ou a classe gramatical a que pertence originalmente o radical.

  • Prefixo: afixos que se acrescentam antes do radical, modificando seu sentido.

  • Vogal de ligação: simplifica a sequência silábica na ligação do radical e do sufixo: gasômetro, auriverde.

  • Consoante de ligação: acontece, na maioria das vezes, entre um radical oxítono terminado em vogal e um sufixo iniciado por uma vogal, o que evita a formação de hiatos: café, cafeteira; tricô, tricotar; cajá, cajazeira.

Para fixação dos processos de formação de palavras:

  • Composição por justaposição: combinação de dois ou mais radicais que não sofrem alteração em sua forma fonológica: amor-perfeito, passatempo, girassol.

  • Composição por aglutinação: combinação de dois ou mais radicais que sofrem alteração na sua forma fonológica: embora (em+boa+hora), planalto (plano+alto)

  • Redução: processo pelo qual se forma uma palavra nova por eliminação de parte de um palavra: foto (fotografia), Sampa (São Paulo), moto (motocicleta), quilo (quilograma).

  • Neologismos: do grego néos – novo, moderno – e logos – palavra, tratado. Formação de uma nova palavra que surge para atender as necessidades específicas dos falantes de uma língua.

Após essa breve revisão, os exercícios devem ser entregues para os alunos a fim de que cada um elabore reflexões, tendo em mente o conteúdo que foi revisado e as relações exigidas por cada enunciado e texto em questão, e responda adequadamente a cada exercício.

Acompanhe as análises/respostas esperadas para cada exercício.

Exercícios comentados

Exercício 1:

Bezerra da Sila – Tem coca aí na geladeira

"Aí meu irmão cagueta é a imagem do cão
Só porque o samba era no morro ele caguetou os irmãos
Fui num samba lá no morro
Nunca vi tanta limpeza

Era proibido cafungar, fumar bagulho e beber cerveja
O responsável assim dizia: Na minha festa não tem bebedeira
Porque aqui no meu barraco só tem Coca aí na geladeira
Tem coca aí na geladeira (refrão 3x) "

Na canção de Bezerra da Silva, o humor é provocado por quais recursos da linguagem?

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Comentário:

O compositor descreve uma festa no morro, e o dono da festa dizia que lá era uma festa tranquila, sem bebedeira, sem orgias e era proibido fumar maconha (bagulho). No refrão, ele reforça a ideia de tranquilidade dizendo que na geladeira só tinha coca (redução de coca-cola – refrigerante). Mas quando a letra é cantada, destaque para o refrão 'coca aí na geladeira', podemos inferir outro efeito de sentido: há algo, no caso um tipo de droga, a cocaína, que vai contra a ideia de tranquilidade apresentada pelo autor.

O humor, a ironia e, consequentemente, a crítica presente na canção são construídos a partir do jogo com as palavras que o compositor faz. Nota-se que na escrita podemos fazer a distinção dos elementos sintáticos da frase, mas, quando cantada a canção, esses podem ser ''confundidos'' e outro sentido terá tomado forma. Podemos, por exemplo, fazer relação com um dos processos de formação de palavras: a composição. Ela tem como característica a combinação de elementos, sem que esses sofram algum tipo de mudança, que tem como resultado a formação de uma nova palavra.

Exercício 2:

Anúncio antigo em barbearia
Anúncio antigo em barbearia

Não podemos negar que há humor no anúncio da barbearia. Isso é claro. Fica, então, a pergunta: que aspecto da estrutura das palavras, conteúdo gramatical, é a chave para que o humor tenha sido gerado?

Comentário:

No anúncio da barbearia, notamos que há uma ambiguidade gerada pela palavra ''pinto'', o que gera humor ao ler. Isso ocorre porque a terminação da palavra pode indicar significados distintos. Vejam só: pinta (mancha de pele), pinto (filhote de galinha), pinto (forma popular para pênis) ou, como a intenção do autor do anúncio, pinto (verbo pintar na 1ª pessoa do singular no presente do indicativo).

Daí, então, o humor no anúncio: corto (cortar) cabelo e pinto (verbo pintar, filhote de galinha ou órgão do aparelho reprodutor masculino).

Poderíamos solucionar esse problema assim, por exemplo: Corto e pinto cabelo.

Exercício 3:

Propaganda do refrigerante Pepsi com o autor Fábio Assunção
Propaganda do refrigerante Pepsi com o autor Fábio Assunção

Bem sabemos que entre a Pepsi e a Coca-Cola há uma antiga disputa pelo amor do público. Nesse anúncio, a Pepsi brinca com um dos termos que dá nome à sua marca rival. Ainda para criar humor, a empresa faz uma relação com um problema vivido pelo ator Fábio Assunção. Como se dá esse processo? Que aspecto gramatical é explorado no texto em questão?

Comentário:

Na propaganda, o humor gerado acontece pela ambiguidade gerada pela palavra ''coca'' associada à imagem do ator Fábio Assunção, que teve problemas com drogas há algum tempo. A palavra ''coca'' pode ser tanto redução de Coca-Cola – refrigerante concorrente da pepsi – quanto gíria utilizada por usuários de cocaína. No enunciado ''eu deixei a coca'', o consumidor pode entender que o ator deixou a Coca-Cola – intenção da empresa pepsi – e/ou deixou a cocaína – o que é, claro, favorável para Fábio Assunção, que passou por um longo tratamento e, na época de veiculação do anúncio, estava voltando para as telinhas.

Exercício 4:

Carnavália

Repique tocou
O surdo escutou
E o meu corasamborim
Cuíca gemeu, será que era meu, quando ela passou por mim?

[Antunes,A.;Brown,C.;Monte,M.Tribalistas,2002 (fragmento)]

Uma das maravilhas ao escrever uma música, ou poesia, é ser livre para criar e encantar. Na canção do grupo Tribalhistas, uma processo de formação de palavras é explorado. Qual é esse processo? Quais são os sentidos que ele nos apresenta?

Comentário:

O vocábulo "corasamborim" é a junção de coração+samba+tamborim e refere-se a elementos que compõem uma escola de samba e à situação emocional em que se encontra o autor da mensagem, com o coração no ritmo da percussão. Esse vocábulo corresponde a um neologismo, visto que há a criação de novos itens linguísticos pelos mecanismos que o nosso sistema de língua já nos disponibilizou.


Por Mariana Pacheco
Graduada em Letras

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