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Dicas de aula sobre memória e história

Estratégias de ensino-aprendizagem

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Um dos debates mais importantes que acontecem nos meios acadêmicos envolve os conceitos de memória e história. Os historiadores debruçam-se sobre questões do que é memória, do que é memória coletiva, do papel desta na construção do saber histórico, ou da dita “história oficial” etc. Tais reflexões são extremamente importantes na formação de um historiador e na produção de conhecimento sobre história.

O historiador, quando vai para a sala de aula, tem como seu papel tornar esse debate acessível a seus alunos. A função do professor aqui é a de fornecer as ferramentas necessárias a fim de que o aluno consiga desenvolver habilidades cognitivas para poder diferenciar o que é memória do que é história. Uma vez que o aluno desenvolve essas habilidades, ele terá capacidade crítica para enxergar as diferenças e, assim, será capaz de identificar interesses por trás de certas construções da memória. E é isso que vamos debater neste texto.

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O que é memória?

A memória é uma reconstrução do passado sem o trabalho crítico do historiador e é feita para atender interesses específicos.
A memória é uma reconstrução do passado sem o trabalho crítico do historiador e é feita para atender interesses específicos.

Uma aula sobre história e memória pode começar com um questionamento prévio sobre o que os alunos compreendem por memória. Uma vez feito esse pequeno exercício com a participação de todos, podem ser abordados o que os historiadores entendem pelo mesmo conceito e quais são os principais debates que o envolvem.

Depois disso, o primeiro passo é lembrar os alunos que a memória não é a mesma coisa que lembrança, uma vez que esta remete a uma experiência individual de um acontecimento. Aquela, por sua vez, não é necessariamente uma experiência individual, pois pode reproduzir uma visão do passado compartilhada (coletiva) e que nem todos os membros que partilham dela vivenciaram. Dessa forma, a memória é uma construção que pode ser transmitida para gerações seguintes.

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Uma vez pontuada essa questão, é importante definirmos que a memória é uma reconstrução do passado feita de maneira parcial e limitada, levando em consideração o que um indivíduo ou um grupo entende como o passado. A memória é uma reconstrução do passado feita sem o processo crítico pelo qual a história é feita.

Isso acontece porque a memória não faz uma análise crítica das fontes ou a utilização de metodologias científicas, tampouco coloca o trabalho final em apreciação científica, como os historiadores fazem. A memória é uma reconstrução do passado que é feita, frequentemente, de acordo com interesses políticos, econômicos ou ideológicos do presente.

Assim, essa falta de embasamento crítico da memória faz com que ela possa ser instrumento para mitificar ou demonizar acontecimentos ou personalidades do passado. Dentro disso, algo comum realizado com a memória é o esquecimento de determinados acontecimentos históricos, uma vez que o que não for interessante na glorificação ou demonização desses é simplesmente esquecido.

Contraponto da memória na história

Levando em consideração o que foi dito sobre a memória, o professor pode pontuar que a construção do conhecimento histórico segue o caminho inverso daquele tomado pela memória. Isso porque a história, aqui entendida como o resultado do trabalho do historiador, passa por um processo de análise científica extenso.

Esse processo inclui a análise científica das fontes, o uso de uma metodologia na construção do saber e a apreciação pela qual seu trabalho passa nos meios científicos/acadêmicos. Importante pontuar que a memória é objeto de pesquisa do historiador, uma vez que ela pode ser utilizada por esse para análise do processo de construção de determinada memória e dos interesses que estão por trás dela.

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A memória na história

Uma vez que a memória foi devidamente esclarecida em sala de aula, exemplos podem ser levantados para que o aluno perceba as diferenças existentes entre ela e a história e para que ele possa identificar o seu uso tendo em vista o reforço de interesses políticos, ideológicos ou econômicos de determinado grupo.

  • Ditadura Militar

Um primeiro exemplo (muito próximo da realidade do aluno e do professor) é a memória que remete à Ditadura Militar, período ditatorial em que o Brasil foi governado por militares, entre 1964 e 1985. A primeira construção da memória realizada nesse sentido procura exaltar o golpe de 1964 como “revolução de 1964”.

A ideia do golpe de 1964 como “revolução” não foi embasada pela historiografia. Isso porque os estudos realizados pelos historiadores concluíram que os acontecimentos entre os dias 31 de março e 2 de abril de 1964 (e toda a preparação que antecedeu esses dias) foram um golpe, pois destituíram a ordem democrática que existia no país desde o estabelecimento da Quarta República e da Constituição de 1946.

A memória construída pelos militares acerca da ditadura faz com que eles se refiram ao golpe de 1964 como “revolução”.[1]
A memória construída pelos militares acerca da ditadura faz com que eles se refiram ao golpe de 1964 como “revolução”.[1]

A justificativa do golpe de que ele foi realizado para “evitar uma ditadura comunista” também é frequentemente evocada pelos defensores e saudosistas da ditadura. Os historiadores, por sua vez, conseguiram mostrar que o golpe de 1964 foi uma articulação de interesses de diferentes grupos que defendiam a modernização do Brasil dentro de um regime autoritário que enfraquecesse os movimentos sociais. Esses estavam em crescimento e defendiam a realização de uma série de reformas no âmbito trabalhista.

Outras memórias da Ditadura Militar podem ser analisadas em sala de aula, como a ideia de que essa forma de governo foi “benéfica para o Brasil economicamente”. O contraponto aí são análises consolidadas na historiografia acerca da gestão econômica ruim desse período, que deixou como saldo o aumento da inflação, da desigualdade social e da dívida externa, por exemplo.

A questão da corrupção é outro ponto que pode ser abordado, pois os alunos podem compreender a contradição de uma memória que afirma não existir corrupção em um regime que não garantia liberdade para que a corrupção de membros do governo fosse investigada e denunciada.

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  • Guerra do Paraguai

Outro assunto relativo à história brasileira e que pode ser analisado dentro do tema memória é a Guerra do Paraguai. Esse conflito aconteceu na segunda metade do século XIX e colocou Brasil, Argentina e Uruguai contra o Paraguai, de 1864 a 1870. Durante muitos anos, certa interpretação desse conflito era consolidada na historiografia. No entanto, mesmo após ser radicalmente revisada, tal interpretação segue firme na memória coletiva de alguns, sobretudo de muitos paraguaios.

Tal memória coletiva afirma que o Paraguai era uma nação democrática que passava por um processo de modernização e industrialização autônomo que desagradava a Inglaterra. Assim, os britânicos manipularam brasileiros e argentinos e uruguaios a unirem-se para destruir o Paraguai.

A abordagem desse assunto pode levar em consideração estudos recentes promovidos por historiadores, como Francisco Doratioto, que mostram todos os interesses e acontecimentos relacionados com o início do conflito em 1864. Além disso, essas novas análises desmistificam uma série de afirmações da memória existentes sobre o conflito.

  • Stalinismo

A memória também pode ser explorada para analisar uma das ditaduras totalitárias do século XX: o stalinismo. Esse regime foi imposto por Josef Stalin, de 1924 a 1953, e ficou caracterizado pela perseguição aos opositores que resultou no fuzilamento de muitos ou na transferência desses para campos de trabalho forçado.

No caso do stalinismo, podem ser levadas para a sala de aula as tentativas de Stalin de construir uma memória coletiva acerca da Revolução Russa e do regime soviético, por exemplo. Isso porque o ditador georgiano procurou apagar da história do país nomes como o de Leon Trostky, uma das lideranças da Revolução Russa e que disputou o poder da URSS depois da morte de Lênin.

A memória construída pelo stalinismo diz que o Massacre de Katyn foi realizado pelos nazistas e não pelos soviéticos.[2]
A memória construída pelo stalinismo diz que o Massacre de Katyn foi realizado pelos nazistas e não pelos soviéticos.[2]

Além disso, pode ser analisada uma memória coletiva construída com o objetivo de minimizar os crimes cometidos por Stalin durante os quase 30 anos em que esteve no comando do país. O regime stalinista procurou, por exemplo, construir a memória de que o Massacre de Katyn foi realizado pelos nazistas, mas, atualmente, os historiadores concluíram que aquele foi um feito realizado pela política secreta soviética, a NKVD.

Memória de personagens históricas

Como mencionado, a memória não serve apenas para construir um passado ideal sobre grandes acontecimentos mas leva em consideração também grandes personalidades. A criação de heróis ou a vilanização de personagens também são uma marca muito forte da memória e não deixam de acontecer por interesses políticos, econômicos ou ideológicos.

Sendo assim, podemos mencionar algumas personagens históricos que a memória pode glorificar ou demonizar de acordo com os diferentes interesses:

  • Ernesto “Che” Guevara: enxergado como um grande revolucionário por grupos da esquerda, Che é visto por grupos conservadores como um assassino.

  • Carlos Marighella: também visto como um grande revolucionário que lutou contra a ditadura, mas entendido como um vilão pelos defensores dessa.

  • Solano López: entendido pelos historiadores como ditador no século XIX, é glorificado no Paraguai como um grande líder militar até hoje.

  • Brilhante Ustra: ex-chefe do DOI-CODI e condenado por tortura durante a Ditadura Militar, Ustra é defendido por aqueles que ignoram, negam ou apoiam todos os seus crimes e exaltam-no como uma grande “herói” nacional.

  • Augusto Pinochet: um dos maiores ditadores da história sul-americana e que conduziu um governo responsável pela morte e tortura de milhares de pessoas. Ainda hoje é personagem de uma memória que ignora, nega ou apoia seus crimes e exalta-o como um “herói”.

A mitificação de personagens históricos pode acontecer também por meios oficiais, isto é, pode ser realizada pelo próprio Estado, quando este possuir interesses em construir uma certa memória histórica.

Esse é o caso de Tiradentes, um dos propagandistas da Inconfidência Mineira, que passou todo o século XIX esquecido e foi alçado à condição de herói nacional quando a República foi proclamada no Brasil. O interesse aqui era o de construir figuras históricas que corroborassem os valores do republicanismo em nosso país.

Acesse também: Dicas de aula que analisam a construção da imagem histórica de Tiradentes

Atividades

Uma atividade que pode ser aplicada a respeito desse assunto é a seguinte:

  • Primeiro, os alunos devem procurar depoimentos sobre determinado assunto estudado em sala de aula, por exemplo, a Segunda Guerra Mundial. Assim, a ideia é que o aluno colha esses depoimentos e construa um relato que enumere todas as memórias desse conflito.

  • Depois disso, ele pode realizar um trabalho de pesquisa em que contrapõe o que foi colhido nos depoimentos com o conhecimento estabelecido por meio da pesquisa histórica. Isso pode ser realizado em um trabalho mais elaborado, que pode ser associado com uma exposição em sala de aula sobre o resultado final do trabalho dos alunos.

Créditos de imagens

[1] FGV/CPDOC

[2] MoLarjung e Shutterstock


Por Daniel Neves
Graduado em História

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